A DEFINIÇÃO DO PERFIL DE UM TERREIRO DE UMBANDA
- TATA LUIS
- 16 de nov. de 2015
- 6 min de leitura
A Umbanda é uma religião múltipla e, diferente da maioria das religiões, possui muitas formas, muitos modos de ser praticada, fato este facilmente comprovável por qualquer um que frequente terreiros já há algum tempo. É difícil – se não impossível – encontrar duas casas que sejam idênticas ou que pelo menos funcionem de forma muito semelhante.
Essa diversidade tem uma explicação; e eu, particularmente, gosto muito das palavras de Manoel Lopes, dirigente do Núcleo de Estudos Espirituais Mata Verde. Ao explanar essa questão. ensina ele que a Umbanda não é um PONTO, e sim uma REDE com infinitos pontos. Imaginem, então, uma rede como a da figura abaixo, e cada terreiro de Umbanda como um dos nós (ou pontos) dessa rede.

Há nós mais próximos das bordas e nós mais afastados das mesmas. Cada nó – ou terreiro –, independente de sua posição, sofre influência de todas as tradições religiosas situadas nas bordas, variando, contudo, a intensidade dessas influências. Terreiros representados por nós próximos à borda “AFRICANISMO”, recebem influências de todas as matrizes religiosas, mas são caracterizados por predominância de rituais mais africanizados, como o excesso de trabalhos com Orixás, o uso de ebós, a realização de camarinhas, a utilização do jogo de búzios, etc. Outros terreiros que estejam mais perto do KARDECISMO, poderão também realizar trabalhos com Orixás mas, certamente, adotarão leituras de Evangelho, preces para desencarnados, sessões de desobsessão, etc. Fica fácil, assim, entender a multiplicidade de ritos e práticas constantes na religião e, mais que isso: fica fácil entender que a UMBANDA É UNA EM SUA DIVERSIDADE, e que é justamente essa diversidade um dos maiores atrativos da religião, já que, mesmo que determinada pessoa não goste das práticas constantes em um determinado terreiro, se procurar bem, sempre encontrará outro com o qual se afinize; afinal, apesar de diferentes, todos estão dentro da grande REDE chamada UMBANDA.
Dito isto, pode parecer que a Umbanda seja uma religião onde “tudo vale”. Não é bem assim. Apesar de permitir essa diversidade tão grande, há fatores que, na minha opinião determinam se o terreiro é de Umbanda ou não, e esses fatores são os que foram determinados pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas no momento da fundação da mesma, em 15 de novembro de 1908. São eles:
Não haver matança / sacrifícios;
Não haver cobrança financeira por atendimentos;
Usar, predominantemente, vestimentas brancas;
Adotar a filosofia de Cristo como regra norteadora de conduta.
Sendo assim, o terreiro pode ter atabaque, pode não ter atabaque, pode usar guias coloridas no pescoço, pode nem usar guia nenhuma, pode entoar mantras, pode ler evangelho, pode jogar búzios, pode não jogar nada, pode ter imagens católicas, pode não ter imagem nenhuma, pode isso, pode aquilo... Mas não pode ferir qualquer dos quatro itens acima destacados. Se ferir um desses itens, no momento em que o estiver ferindo, estará deixando de ser Umbanda.
A falta do entendimento dessa UNICIDADE na DIVERSIDADE é a responsável pela maior parte dos conflitos conscienciais dos umbandistas, que não compreendem o porquê de terreiros tão diferentes serem todos chamados de Umbanda. Daí para achar que “um está mais certo que outro” é um pulo; quando, na verdade, pode ser que nenhum deles esteja errado, sendo apenas representantes de pontos diferentes na grande rede que é a Umbanda, ou, em outras palavras, perfis diferentes de uma mesma face.
Que cada um, portanto, escolha aquele perfil com o qual melhor se identificar, o que melhor responder aos seus anseios e questionamentos; mas que não desista enquanto não o encontrar. Ele certamente existe, basta ser encontrado dentro dessa grande rede.
Falando em PERFIL, podemos afirmar que é justamente ELE o responsável pela decepção de alguns médiuns em relação ao terreiro que frequentam. Não por culpa do terreiro, mas por conta de o médium passar a frequentar aquela casa tendo, de antemão, uma visão pré-formada do perfil que espera encontrar. Passado algum tempo, ao descobrir que o perfil não corresponde exatamente ao esperado, o frequentador se desilude (de uma ilusão criada por ele mesmo) e se afasta. E tem que ser assim mesmo! Não que o frequentador tenha que formar uma idéia antecipada sobre o terreiro que frequentará, mas cada um tem que procurar o perfil que mais lhe satisfaz. Só assim há sentido em se frequentar qualquer casa de religião.
Para evitar esse tipo de mal entendido, é bom que, desde sempre, fique claro para todos qual é o perfil que o templo umbandista tem ou que deseja ter. Acho isso importante, porque, nem sempre a coisa é tão evidente quanto o dirigente possa pensar. Recentemente, por exemplo, em nossa casa, a Cabocla reuniu os médiuns e decidiu conversar justamente sobre esse assunto, definindo – ou deixando claro – o perfil de nosso terreiro.
Ela começou citando alguns terreiros conhecidos, com perfis bem diferentes entre si, e todos realizando um excelente trabalho:
Tenda Mirim: trabalha com pretos-velhos e caboclos (como falangeiros de Orixás). Aproxima-se da Umbanda Esotérica.
Tupiara: Trabalha com caboclos e mentores desencarnados. Realiza operações espirituais com a equipe do Dr. Bezerra de Menezes. Faz correntes com pretos-velhos. Não trabalha com Orixás. Aproxima-se do Espiritismo Kardecista.
Núcleo de Estudos Mata Verde: trabalha com caboclos, pretos-velhos, exus e falangeiros dos Orixás. Dá bastante ênfase ao estudo. Emprega a doutrina do “Arapé”.
Templo Estrela do Oriente: trabalha com todos os falangeiros dos Orixás, realiza trabalhos de cura com mentores desencarnados, e realiza muitas palestras.
A maioria dos terreiros: Realiza trabalhos com Orixás, há pouco estudo e muitos rituais, obrigações, ebós, roupas coloridas, penachos, etc. Aproximam-se do Africanismo.
Depois de citar os exemplos acima, ela – a Cabocla – explicou que o perfil de cada terreiro é consoante aos seus objetivos, e citou como alguns dos objetivos de "A CENTELHA DIVINA":
Desenvolver em seus frequentadores uma visão holística da espiritualidade, focando a evolução do espírito humano como principal meta.
Formar médiuns capacitados a atuar como intermediadores entre os planos material e espiritual, aconselhando, orientando e cuidando de outras pessoas, através do trabalho mediúnico em consultas e demais atendimentos.
Auxiliar a expansão da consciência dos Médiuns de Trabalho, ensinando-lhes conceitos espirituais capazes de promover, paulatinamente, o desapego material e emocional.
Fortalecer as capacidades medianímicas dos Médiuns de Trabalho, para que aprendam a se auto-proteger e a se auto-equilibrar energeticamente.
Expandir as filosofias e conceitos aqui ensinados, promovendo a abertura de tantos outros núcleos semelhantes quanto for possível.
Para atingir os objetivos citados, "A CENTELHA DIVINA" emprega os seguintes métodos:
Realização de sessões de desenvolvimento mediúnico, para que os Médiuns de Trabalho aprendam a se sintonizar com os Guias Espirituais, com o mínimo de interferência anímica possível.
Realização de sessões de capacitação, para que os Médiuns de Trabalho tenham um rumo seguro de aprendizado espiritual, trazendo-lhes subsídios para o entendimento de manipulações energéticas com segurança, através da proposta pedagógica da Doutrina dos Sete Raios.
Inclusão de estudo sobre mediunidade e todas as suas particularidades durante o trabalho espiritual.
Inclusão de leituras e vivências elucidativas sobre o mundo espiritual e suas ações sobre o plano físico.
Preparação de médiuns, em termos espirituais e psicológicos para o início de novos núcleos de trabalho.
Baseado nos objetivos e nos métodos empregados para que estes sejam atingidos, o perfil de "A CENTELHA DIVINA" pode ser definido da seguinte forma:
“A CENTELHA DIVINA" é uma missão religiosa umbandista com foco no Universalismo, e que realiza:
Atendimento público com Caboclos, Pretos-Velhos e Exus.
Correntes de Oração e de Renovação.
Correntes das Almas, para desobsessão.
Sessões de Capacitação para instrução mediúnica.
Sessões de Desenvolvimento e de Festa.
Pouco trabalho com Orixás.
Muitos estudos e palestras.
Instrução espiritual para crianças, adolescentes e adultos.
Ação social constante.
"A CENTELHA DIVINA" prioriza sempre:
Menos forma/rituais; e mais conteúdo/aprendizado, adotando a Doutrina dos Sete Raios como método condutor do aprendizado.
Em resumo, "A CENTELHA DIVINA" em nada pode ser considerada uma organização umbandista melhor ou pior que as demais. É apenas mais um pequeno nó na grande rede que define o que é Umbanda. Uma rede na qual cada nó tem a sua importância e valor, e onde não há nó melhor que outro; há apenas pontos que recebem influências em intensidades diferentes das culturas de origem negra, branca, indígena e oriental, com suas respectivas crenças e costumes.
Sendo assim, ficamos bem à vontade para prosseguirmos nosso trabalho, sabendo que, se não atendemos ao que determinadas pessoas esperam - e nem temos a pretensão de agradar a todos - é tão somente porque, para essas pessoas, o NÓ da rede mais adequado não é aquele sobre o qual nos situamos, mas um outro que elas mesmas deverão encontrar, enquanto quiserem beber nas sagradas águas de nossa Umbanda querida!
Amplexos,
Tata Luis