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COMO NASCEU A CENTELHA DIVINA


Em 27 de setembro de 2014, a Fraternidade Espiritualista Caboclo Ubirajara completava seus sete anos de trabalhos ininterruptos. Foram sete anos de aprendizado, estudo, muito trabalho e também muitas dificuldades, aquelas pelas quais a maior parte dos terreiros passa (acho que conheci todas, rs, rs). Para mim, contudo, mais que um simples aniversário – como os seis anteriores -, essa data tinha um valor mais que especial. Sempre escutei de minha mãe de santo (já desencarnada) que os terreiros de nossa linhagem espiritual, nascidos da mesma raiz plantada pelo Caboclo Tangurupará (lá na primeira metade do século passado), caso não agradassem à espiritualidade, não chegavam aos seus sete anos. Guardei essa informação; e torcia para que nosso aniversário chegasse rapidinho. Não foi tão “rapidinho” quanto eu gostaria, mas chegou! E que alegria! Posso dizer que foi um dos momentos mais marcantes na minha trajetória como Pai de Terreiro. Fizemos uma bela festa, tivemos a visita - através da minha mediunidade - dos Caboclos Pena Branca e Iracema (ambos de minha mãe de santo) e do Caboclo Tangurupará (da minha avó de santo), este incorporado em um dos médiuns da corrente.

Terminamos nossa sessão festiva com os merecidos “parabéns” e, para não fugir à regra, chorei copiosamente ao discursar e ao relatar aquelas palavras de minha mãe de santo aos presentes. Não tenho dúvidas de que, naquele momento, consegui passar a todos a minha emoção por estar superando esse desafio que, para mim, atestava que no Mundo Espiritual havia a aprovação clara de tudo o que havíamos desenvolvido durante os sete anos que se completavam.

Terminei a sessão inebriado e com a certeza de estar no caminho certo. Agradeci aos nossos Guias e Orixás que confiaram em mim para a realização dessa tarefa e fui dormir apenas desejando continuar meu trabalhinho da mesma forma que sempre fiz, já que era isso o que eu entendia que deveria ser feito.

Alguns meses se passaram. No início de janeiro de 2015, enquanto preparava alguns trabalhos de iniciação mediúnica, fui surpreendido pela presença da Cabocla Janaína que, mentalmente, iniciou um longo diálogo comigo (como às vezes ela costuma fazer).

Após as saudações iniciais, ela foi direto ao assunto: “- Filho, estou promovendo você!”. “- Como assim???”, perguntei-lhe espantado, já que, no nosso terreiro entendemos a palavra “promoção” como a ascensão de um médium a um grau superior dentro da escala de desenvolvimento, já que os classificamos, progressivamente, como “A”, “B”, “C” ou “D” dependendo de seu estágio mediúnico.

Como assim, eu estaria sendo promovido? Promovido a que? Médium “E”? Médium “F”? Se eu já era o Pai do Terreiro, não haveria como ser promovido! Foi aí que ela completou: “- Até hoje, você foi PAI; a partir de agora será TATA! Até hoje, você teve filhos; agora terá netos!” - Oi??” Novo espanto! Como assim, “Tata”? O que isso significaria? Por quê isso? O que eu teria que fazer?

Para responder minhas muitas perguntas, ela começou a me explicar que os caboclos responsáveis pela nossa linhagem espiritual tinham um projeto em desenvolvimento há cerca de trinta anos, visando auxiliar ao progresso dos terreiros de nossa família espiritual. Esse projeto chamava-se “A CENTELHA DIVINA” e que, agora, após sete anos – digamos – sendo observado sobre como eu conduzia o meu trabalho, e tendo sido aprovado, havia chegado a hora de implantar tudo o que, por esse longo tempo, havia sido analisado, ensaiado e testado tanto nos terreiros anteriores (de minha mãe e de minha avó de santo) quanto naqueles que brotaram de nossa raiz, mas não deram certo e tiveram que fechar as portas. Ainda segundo ela, eu havia sido indicado para assumir a posição denominada de “Tata” da nossa linhagem ("Tata" é "Pai" em bantu) porque, atualmente, além de mais de 30 anos de terreiro, sou aquele que dirige o templo mais antigo, ainda em atividade, de nossa família espiritual e o uso de um termo diferente de "Pai" serviria para identificar as funções que eu exerceria dali por diante, diferentes também das exercidas por um Pai ou Mãe de terreiro responsável por apenas uma casa.

Muito bem, mas o que a Espiritualidade esperaria de mim? Qual seria o meu trabalho dali em diante? Para começar, ela explicou que esse projeto visa dar uma estrutura sólida administrativa e espiritualmente para os nossos templos descendentes, fornecendo-lhes condições de atuarem indefinidamente sem que tenham que fechar as portas como alguns do passado fizeram. Meu papel, então, seria, não apenas abrir novos núcleos filiados, mas também dar-lhes todo o suporte espiritual, administrativo e organizacional para que os novos desafios do século 21 não fossem suficientes para obrigar seus dirigentes a encerrar as atividades.

Para isso, disse-me ela, já havia uma série de ações planejadas pelos Caboclos Tangurupará, Pena Branca e Ubirajara, baseadas nas experiências desenvolvidas nos terreiros anteriores. Eu teria que implementá-las e desenvolvê-las.

Perguntei-lhe então: “- Se há um projeto tão importante assim, há cerca de trinta anos sendo estudado, como é que nós nunca soubemos nada e nem desconfiamos disso?” Ela me respondeu que houve alguns sinais, e que nós simplesmente não percebemos. Dentre eles, ela lembrou que, no final dos anos 80, o Caboclo Ubirajara havia me ensinado um ponto de encerramento de sessão – que passou a ser cantado em todas as sessões desde então – invocando a proteção da “Centelha Divina”. Em meados dos anos 90, o mesmo caboclo me solicitou que escrevesse um livro de Umbanda, colocando ali tudo o que eu já sabia sobre a religião (esse livro hoje é usado como base para os cursos de Umbanda em nossa casa), e que desse à obra o nome de “Umbanda, a Centelha Divina”. No começo dos anos 2000, o Caboclo Pena Branca alterou o nome de seu terreiro, rebatizando-o de “Missão Umbandista Racional Centelha Divina”. Enfim, além desses, outros fatos aconteceram e nós, meros mortais, não enxergamos a movimentação astral – e tão inteligente - por trás deles.

Para que eu tivesse condições de sair do “micro” e pensar no “macro”, desenvolvendo o que devesse ser desenvolvido, eu teria que, durante o ano de 2015 me afastar temporariamente da então FECU (Fraternidade Espiritualista Caboclo Ubirajara) para preparar a implantação dessa nova estrutura, onde o meu terreiro atual passaria a ser somente mais um dentro dessa organização, dirigido no dia a dia pelo nosso Pai Pequeno Rafael. Paralelamente, eu, como Tata, voltaria meus olhos para o grupo como um todo, um grupo que seria formado pela CCU (novo nome da FECU, que significa “Casa do Caboclo Ubirajara”) e por tantos outros núcleos que eu fosse inaugurar, a começar por três, cujos médiuns já estão em fase final de preparação (Casa de Tia Chica, Casa da Cabocla Jussara e Templo Águas da Oxum).

Dito e feito! Sem eu esperar, logo fui obrigado pela minha profissão a, praticamente, me mudar para a cidade de Campos, indo ao Rio de Janeiro somente em finais de semana. Nesse período, enquanto o Pai Rafael coordenava os trabalhos no terreiro, todas as noites, nos recônditos dos meus aposentos, ao chegar do trabalho, eu preparava todo o material necessário para a implantação: planejamento, procedimentos, apresentações, organização espiritual do grupo, organização administrativa, etc, de forma que, em 15 de novembro de 2015, data marcada não por acaso pela Cabocla Janaína, esse projeto que se desenvolvia em segredo pudesse ser apresentado à coletividade de nosso templo, com o máximo de detalhes possíveis. E bota detalhe nisso!

Para que pudesse ser implantado, muitas alterações tiveram que ser previstas, incluindo o nome da FECU, o tipo de uniforme usado pelos médiuns, a forma de realização de algumas atividades, a estrutura da Diretoria, a abertura de novos dias de trabalho, a implementação da “Doutrina dos Sete Raios” e muito mais! Tudo visando atingir um ponto de fácil padronização de métodos de trabalho, de realização de estudos espirituais, de organização física, de controle financeiro e de desenvolvimento mediúnico, a ser adotado sem dificuldade pelos novos templos que iremos inaugurar, facilitando-lhes a superação dos desafios modernos.

Mas isso foi só o começo! Ainda não parou por aí! Novas ações terão ainda que ser tomadas a médio e a longo prazo para compormos esse organismo de forma tão harmônica, segura e coesa, pois nessa organização, nossos núcleos atuarão como membros de um mesmo corpo, seguindo as mesmas diretrizes espirituais e materiais, adaptados apenas às necessidades regionais (até as fachadas e instalações de nossos núcleos serão iguais).

E, para conseguir manter toda essa estrutura funcional e ativa, da forma como planejado pelos nossos caboclos, a ação do Tata (no caso, eu, rs, rs) terá que ser constante, eficiente e ininterrupta, visitando todos os núcleos, instruindo, resolvendo dificuldades, integrando, promovendo encontros, etc.

Hoje, já passado o 15 de novembro, com A CENTELHA DIVINA fundada e pronta para caminhar, olho para o horizonte a minha frente e não consigo imaginar onde isso tudo vai dar... Sei apenas que, no que depender de mim, não irei desapontar as expectativas dos nossos caboclos e nem deixarei cair no esquecimento tudo o que foi desenvolvido anteriormente nos terreiros de nossa raiz. Vou até o fim! Vou manter essa bandeira erguida custe o que custar! Acabo de assumir a liderança dos que virão após mim, e vou, sim, com meu trabalho e com meu amor à Umbanda levar essa bandeira tão longe e até quando Oxalá permitir. Quando meu desencarne ocorrer, querendo Deus, deixarei para o novo Tata que me substituir “A CENTELHA DIVINA” organizada de maneira sólida e harmonizada nos princípios da Espiritualidade, Caridade e Discernimento, e regressarei à pátria espiritual com a consciência tranquila, pronto para me encontrar com meus ancestrais espirituais e dizer-lhes: “- O que vocês fizeram na Terra não acabou com o seu desencarne! Fiz a minha parte!”.

Voltando a janeiro de 2015, teve uma frase que a Cabocla Janaína me falou, que calou fundo e que eu ainda não citei, mas que se enquadra perfeitamente no entendimento desse assunto. Disse-me ela: “- Filho, promoção na Umbanda não é prêmio e nem motivo de orgulho; mas sim de maior responsabilidade!”. E não é que ela tem razão?

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.
 

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