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A BÊNÇÃO DO ESQUECIMENTO


Inúmeras são as situações por que passamos e que nos trazem insatisfações e sofrimentos; às vezes desde pouco momentos após o nascimento, como por exemplo o bebê que sofre com o abandono dos pais, a criança cuja família não dispõe do necessário para viver – enquanto o vizinho se farta com o supérfluo -, o adolescente que sofre abusos ou possui uma doença crônica, o adulto que não se estabiliza em empregos e que passa por severas dificuldades financeiras... Enfim, situações que trazem sofrimentos são abundantes em nosso meio de convívio. E, se nos infelicitamos com elas, muitas vezes acabamos procurando alguma religião para tentar nos explicar a razão que, aparentemente, não existe, mas da qual sofremos as conseqüências independente de nossas ações atuais.

Há religiões, por exemplo, que explicam o sofrimento como "é da vontade de Deus!". Se questionarmos o porquê de a vontade de Deus ser diferente para mim e para meu vizinho, somos instruídos de que a Vontade de Deus é um mistério insondável, como insondável é o próprio Deus, e que não devemos questionar seus desígnios. Para outras religiões, a razão do sofrimento é a atuação do diabo em nossa vida pois, afinal, “o inimigo só quer roubar, matar e destruir” e, como solução, devemos entregar a vida a Jesus – o que significa entrar para aquela religião – para que a atuação diabólica seja exterminada. Procurando alguma explicação para nossos sofrimentos em alguns templos candomblecistas ou umbandistas pouco espiritualizados, teremos como resposta que tudo de ruim que nos acontece é devido à existência de um trabalho feito para nos prejudicar, ou um "olho grande", inveja, etc. Será necessário, então, realizar um outro trabalho ou um ebó para tentar reverter a situação.

Mas todos esses casos tem uma coisa em comum: neles, a culpa dos nossos sofrimentos é atribuída a uma terceira pessoa, seja Deus, o diabo ou um inimigo. Respostas assim costumam ser facilmente assimiladas por quem está sofrendo. Em primeiro lugar, por serem – por si só – uma resposta! Ou seja, o problema por que passa TEM uma causa, não é fortuito. Em segundo lugar, por indicarem um CULPADO para o problema, alguém que deve ter toda a responsabilidade sobre nossos sofrimentos e que, sendo assim, nos exime de qualquer renovação de atitude ou de esforço para solucionar a situação. Em outras palavras, é muito mais fácil termos alguém para culpar a procurar “a culpa” em nós mesmos.

Mas, se as respostas dadas acima satisfazem de imediato, não permanecem por muito tempo, justamente por não indicarem o peso de nossas ações – atuais ou pretéritas – na nossa felicidade ou infelicidade. E aí, vemos pessoas constantemente mudando de templo ou de religião na esperança de resolverem problemas que são de sua responsabilidade.

E é essa explicação que – na maioria das vezes – a pessoa que sofre irá encontrar em um centro kardecista ou em um terreiro de Umbanda mais espiritualizado: “A responsabilidade de nossos atos É NOSSA!”. Cada um de nós colhe o que planta. Um outro adágio diz que “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Não é Deus, o diabo e nem o nosso inimigo o culpado pelos nossos problemas, mas nós mesmos, pelo que fizemos ou deixamos de fazer em situações pretéritas. E aí entra aquela palavra que muito é ouvida, mas pouco compreendida: o KARMA. Karma significa AÇÃO, e nada mais é que a ação (ou reação) causada por alguma outra ação que praticamos. Não é castigo, é resgate!

E mais: há situações que NÓS MESMOS escolhemos passar nessa encarnação, seja porque as tenhamos identificado como boas oportunidades de aprendizado ou para ajudarmos a ensinar algo a outrem.

E, nesse ponto, muitos começam a questionar:

  • Como posso estar resgatando algo de que não lembro?

  • Se a reencarnação tem por objetivo a nossa evolução, como posso evoluir tendo que recomeçar do zero, ou seja, sem lembranças, a cada renascimento?

  • Como posso ter escolhido passar por um problema que qualquer um, em sã consciência jamais desejaria para si?

  • Se a reencarnação é um fato e tudo isso é verdade, por que não me lembro?

  • Não seria mais fácil e proveitoso se eu me lembrasse de tudo?

Se refletirmos um pouco sobre esses mesmos questionamentos, chegaremos a uma conclusão: o esquecimento, além de necessário à nossa evolução, É UMA VERDADEIRA BÊNÇÃO espiritual. Contudo, antes de explicarmos o porquê dessa assertiva, vamos tentar entender como o esquecimento se processa.

Imaginemos um programa de televisão tipo “reality show”, em que pessoas sejam submetidas à observação constante do público, sem saber o que se passa no mundo exterior. Imaginemos que tais participantes possam conversar com quem está do lado de fora através de um diário que escrevem em um computador, e que tal diário pode ser lido por quem está de fora do programa, mas não pode ser respondido. Os dias se passam e cada participante do programa alimenta, diariamente, seu diário com novas informações. Um dia o programa acaba. Quando a pessoa volta para o mundo exterior, tem contato com tudo o que escreveu e ainda com os comentários, dicas e opiniões que seus escritos geraram, indicando, inclusive, orientações quanto ao comportamento dos demais participantes. Pode, então, ler cada linha quantas vezes quiser, na hora que desejar.

Imaginemos, agora que, cinco anos depois, o programa reinicie, e que os mesmos participantes voltem para a emissora. Novamente terão que escrever seus diários mas, com um novo computador, não poderão ler nada do que escreveram ou dos comentários que receberam por conta de sua experiência anterior. Contarão apenas com suas lembranças, nesse momento já bem vagas, sobre como devem lidar com os demais companheiros. Ao término do programa, novamente poderão avaliar suas anotações e os comentários dos telespectadores e, querendo, poderão reunir esses aos anteriores, formando um compêndio de experiências.

Esse é um exemplo um pouco grosseiro, mas serve para explicar o seguinte: Nosso cérebro físico é como o computador de onde o participante do programa envia as suas mensagens. A cada nova participação no programa, recebemos um computador novo, com memória intacta, para que possamos gravar nosso diário. Nossa consciência espiritual é a rede que recebe as informações de cada um dos computadores que utilizamos em nossa existência infinita. Enquanto estamos encarnados, não temos acesso às informações que acumulamos nessa rede. Contamos apenas com uma vaga lembrança – que entendemos como intuição – das experiências que passamos. Contudo, cada dia, cada momento, é registrado em nosso diário e, como no programa, encaminhado à nossa consciência espiritual. Quando desencarnamos – ou saímos do programa – recobramos todas as lembranças, armazenadas na rede espiritual de nossa consciência e, a partir daí, iniciamos os preparativos para mais uma encarnação, prometendo para nós mesmos que dessa vez será diferente e nos sairemos melhor.

Muito bem! Assim acontece com todos nós, limitados que estamos pelas características biofísicas de nosso cérebro carnal. Mas por quê é assim? Por quê não podemos “acessar” nossa rede consciencial daqui mesmo? Ora, sempre que agimos de forma contrária à ordem natural das coisas, ou seja sempre que infringimos a LEI DO EQUILÍBRIO, da Harmonia, algo necessariamente deverá acontecer para nos forçar novamente ao caminho inicial. A isso chamamos “Karma”, ou seja, “Ação”. E, justamente, a necessidade dos resgates kármicos é a grande responsável pelo nosso esquecimento temporário. Senão, vejamos:

  • Quão torturante seria a nossa vida se, ao nascer já soubéssemos de antemão todas as dificuldades e sofrimentos que teríamos que passar por conta de erros pretéritos...

  • Como seria terrível o excesso de recordações – boas e ruins – que teríamos em nossa mente. Recordações de passados longínquos, do início da criação do Universo, talvez. Que tormento seria termos tantas lembranças assim...

  • Como seria ruim olharmos para uma pessoa e lembrarmos de cada contato passado que tivéssemos tido: nossas brigas, nossos romances, nossas mágoas...

  • Quão revoltante seria termos vindo de uma vida opulenta e saudável e, agora, nos vermos diante de situações de extrema dificuldade e com uma doença crônica que nos faz sofrer continuamente?

  • Imaginemos, ainda, dois ferrenhos inimigos que tenham se maltratado mutuamente durante toda uma vida. De que forma poderiam ver nascer a paz senão através do esquecimento momentâneo e do renascimento dentro de um mesmo seio familiar? É certo que, em casos assim, nem sempre uma ou duas encarnações são suficientes para apaziguar ódios por tanto tempo alimentados. Mas, se jamais se esquecessem das ofensas trocadas, jamais experimentariam o amor. E como ficaria a evolução dos espíritos?

Enfim, uma seqüência de vidas com a continuidade de todas as lembranças seria a mesma coisa que uma única vida. Não haveria utilidade nenhuma em trocar de corpo. Não haveria nem mesmo necessidade de encarnarmos uma única vez. Alguém, nesse ponto, poderia então inquirir: Mas e se realmente só tivermos uma única vida? E a resposta vem fácil: Então Deus seria completamente injusto, dadas as diferenças físicas, psicológicas, financeiras, sociais, etc, entre cada uma de suas criaturas.

O fato é que estamos permanentemente em evolução, e o esquecimento que experimentamos ao reencarnar, é um auxílio de grande valia na superação de nossas dificuldades. Ninguém progride se permanecer preso ao passado. É, sim, a grande chance que temos de tomar rumos diferentes, revermos nosso modo de ser, reconstruir amizades, perdoar e sermos perdoados.

Além de tudo isso, há ainda o fator MÉRITO. Se conhecêssemos as causas de todos os nossos infortúnios, nosso mérito ao passar por eles seria menor do que sem conhecê-las. Pois nesses momentos é que pomos à prova nossa fé, nossa vontade, perseverança, etc. Saber a causa e – de antemão – o tempo que uma provação irá durar, somente atenuaria o seu efeito, diminuindo nosso mérito e, conseqüentemente o grau de recompensa pessoal que poderíamos experimentar.

Engana-se, todavia, quem pensa que as experiências adquiridas em cada vida são completamente apagadas com a reencarnação. A consciência espiritual nunca esquece. Contudo, por hora, enquanto estivermos encarnados, estaremos temporariamente com o acesso bloqueado. Mas elas estão lá, guardadas em nossa mente espiritual, prontas para serem utilizadas quando realmente necessário. Aqui, no plano material, nossas experiências acumuladas são levemente percebidas como intuição, como vontade, como “jeito de ser”, como personalidade. E isso é o que nos basta e o que nos auxilia a progredir.

Quando estivermos passando por situações difíceis, basta sabermos que alguma razão há para aquilo acontecer e que devemos apenas seguir em frente, fazendo o que estiver ao nosso alcance para resolvê-las, não esquecendo, contudo que, na maioria das vezes, o objetivo maior do resgate kármico é nos chamar à razão, estimulando-nos à reforma íntima e à superação de nossas limitações morais.

Por tudo isso, ao contrário do que muitos pensam, podemos afirmar que o esquecimento momentâneo é sim, uma verdadeira bênção, e que devemos saber utilizá-lo – e aproveitá-lo – mudando nossos rumos, nos aperfeiçoando, desenvolvendo aqui, neste momento, o que há de melhor em nós e o que nos programamos para realizar, sem perder a experiência terrena.

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