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NOSSOS FILHOS NÃO SÃO NOSSOS


Sempre, com a chegada o bebê, a rotina dentro de casa muda. Aliás, a própria casa muda; ganha berço, novos enfeites e um espaço todo especial, destinado a abrigar o novo morador. Os parentes começam a especular sobre a personalidade e as feições infantis; noites mal-dormidas parecem ser compensadas com o sorriso fácil e as primeiras expressões de carinho. Os pais se sentem realizados e procuram comparar seu filho consigo próprio, pelas lembranças e recordações.

Crescendo um pouco mais, iniciam-se os ensinamentos: a criança vai à escola, o pai ensina um jogo novo, a mãe ensina os cuidados pessoais e a personalidade. Antes, extremamente dependente, a criança começa, aos poucos, a delinear e a demonstrar as próprias vontades.

Com a adolescência, a preocupação dos pais é multiplicada. São as amizades que não transmitem confiança, é o mundo que apresenta alto grau de violência, é a escolha dos caminhos – inclusive profissionais – que não combinam com as escolhas paternas. E, normalmente, é nessa fase que os pais constatam algo que ainda não tinham percebido: Seu filho não é mais bebê e possui vontade própria! E mais: suas vontades – muitas vezes – não são as mesmas de seus genitores. Nesse ponto, não havendo compreensão e entendimento de ambas as partes, a relação entre pais e filhos pode ficar complicada e, às vezes, demorar muito tempo para ser restabelecida. Mas por que isso acontece? Na maioria dos casos, simplesmente porque os pais esquecem que seus filhos não lhes pertencem. São criaturas divinas – como eles mesmos -, que tem vontade própria, aspirações, sonhos e cujos espíritos, ansiosos, esperam por novas situações a experimentar.

Quando o bebê nasce, o instinto paternal aflora, e não vemos na criança o que ele realmente é: um espírito. Buscamos as afinidades físicas, cercamo-lo de cuidados e, cada vez menos, damos chance – a nós mesmos – de perceber sua verdadeira natureza. Esse tipo de atitude é normal e até aceitável, afinal faz parte da condição animal. E é, inclusive, graças ao instinto paternal que desafetos anteriores começam a ser vencidos.

Muitas vezes, o filho de hoje foi um grande rival no passado. Alguém a quem juramos ódio eterno e de quem jamais imaginaríamos uma aproximação afetiva. É, portanto, nos laços consangüíneos – fortalecidos pelo instinto paternal – que esquecemos um pouco da rivalidade passada e nos debruçamos cheios de cuidados sobre aquele que precisa de nós para tudo e que nos encara com aquele olhar de dependência completa. E, se houver alguma afinidade de traços físicos conosco, aí então, a aproximação é ainda mais favorecida.

Conforme a criança cresce, iniciamos o processo de adequação da mesma ao mundo e à sociedade. Ensinamos o que é aceito e o que não é. Educamos. Damos instrução e chamamos à atenção caso não corresponda às nossas expectativas e à da cultura em que vivemos. E esperamos que a criança erre cada vez menos – segundo o nosso ponto de vista. Não entendemos quando se torna refratária aos nossos ensinamentos e carinhos. “Como pode ser tão difícil para você entender o que estou falando?” costumamos dizer.

Pensamentos desse tipo ocorrem porque esquecemos que cada um de nós, seja filho, pai, mãe ou amigo, é um ser completo por si só, com seus próprios desejos e uma bagagem de experiências única, experienciada somente por ele e por mais ninguém. Se suas experiências são somente suas, a sua capacidade de entendimento também é única, porque é diretamente originada da primeira. Não existem, portanto, crianças iguais, como não existem adultos iguais. Aliás, comparar um filho com outro é um erro muito comum. Não se pode comparar coisas diferentes. Cada um tem um nível de entendimento distinto, uma capacidade de realizações diferente e, nenhum dos dois pode ser considerado culpado por suas limitações. Lembremos sempre que nossas limitações são resultado direto de nossa bagagem existencial, de nossas recordações íntimas e do aprendizado até então angariado. Se um filho é mais desenvolvido que outro, mais aplicado, mais interessado, mais comportado, menos agressivo, ótimo! É sinal que já conseguiu aprender um pouco mais e escalar novos degraus na jornada evolutiva. Mas não quer dizer que um dia não tenha sido igual ou pior que o outro. Simplesmente não lembramos, porque provavelmente presenciamos esse comportamento em vidas passadas. Assim como também não quer dizer que o filho mais atrasado um dia não será igual ou melhor que outro. E nisso, os pais têm papel de suma importância, pois cabe a eles, na função de pais, orientarem sobre as melhores escolhas e caminhos na vida.

Nesse ponto ocorrem algumas divergências, pois muitos pais exercem esse papel pela metade ou simplesmente não o exercem. Seja “para evitar aborrecimentos”, seja por não terem pulso e nem tato para saberem resolver as situações da melhor forma possível. E aí, voluntariamente, abrem mão do dom divino da paternidade, deixando de contribuir – como deveriam – para o progresso espiritual daqueles que lhes foram confiados como filhos nessa encarnação. Aliás, ninguém passa a ser pai ou mãe sem que antes tenha aceitado essa responsabilidade. Seja em momentos antes da encarnação ou no desprendimento momentâneo ocasionado pelo sono do corpo físico. Logo, ninguém pode se furtar às responsabilidades que as funções paternas exigem. Se, voluntariamente, fogem do dever assumido, cedo ou tarde terão que prestar contas pela sua omissão e por terem contribuído para a falta do avanço espiritual daqueles de quem a tutela lhes foi confiada. Mormente, situações assim exigirão novo retorno ao corpo físico para a continuidade da tarefa abortada.

Orientar, ensinar e educar são conceitos que se resumem em: “prover a criança dos conhecimentos que se acha corretos”. Ou seja, cabe ao pai e à mãe indicarem o melhor caminho de acordo com suas próprias convicções. Se estão certas ou erradas, não importa. O erro é parte da nossa própria evolução. Mas que erremos tentando acertar sempre. Além do mais, se o filho foi confiado aquele casal, é porque o pai e a mãe têm algo a ensinar e que aquele espírito na condição de filho necessita para a sua própria evolução.

Um dos pontos de maior resistência é, por exemplo, a religião. Muitos pais afirmam que não dão instrução espiritual aos seus filhos porque religião “é uma coisa muito pessoal” e que deixarão, por isso, que os próprios filhos a decidam por si quando tiverem maturidade para isso. Ledo engano, pois a religião – seja qual for – é ferramenta utilíssima na formação da personalidade e, por isso, todos devem ter contato com ela desde cedo. Se deixamos a religião para ser escolhida na idade adulta, por que também não deixamos nosso filho crescer para escolher se deve ou não aprender a ler? Por que não esperamos ficar adulto para ensinarmos conceitos de moral? Simplesmente porque, nesses casos, conseguimos perceber a importância da leitura e das boas ações como meios de integração social. Mas nem sempre conseguimos ter a mesma clareza em relação à religião. Ainda mais se for uma religião pouco aceita pela maioria da sociedade. Mas, se a nossa religião serve para nós, é ela que devemos ensinar aos nossos filhos, pois ela é o retrato do que achamos correto e que, por conseguinte, na condição de orientadores, devemos transmitir às crianças. Quando crescerem, se desejarem mudar de religião, que o façam com consciência. Assim como, se resolverem parar de ler ou abdicar da moral ensinada, que o façam com discernimento e sabendo as conseqüências de seus atos.

Quando nossos filhos atingem a adolescência, inicia-se um período muitas vezes confuso pois, se antes, como bebês ou crianças, nossa vontade conseguia prevalecer, nessa fase a situação muda. O adolescente começa a expor suas próprias vontades e a contestar nossa orientação. Começa a ter consciência de si e passa a testar seus próprios limites, muitas vezes afrontando os pais ou a sociedade que lhe cerca. É a fase da rebeldia e também de grandes e importantes decisões, às quais – nem sempre – são concordantes com as opiniões dos pais.

Enquanto couber aos pais a orientação, é isso que os pais devem fazer: Orientar! Nessa fase, essa ação se resume a mostrar as conseqüências boas e ruins de seus atos, auxiliar na escolha das amizades, impedir que, por imprudência arrisquem sua saúde, etc. Mas é também necessário que consigam enxergar as habilidades e tendências naturais de seu filho. Tentar “forçar” algo que não é natural é violar o livre-arbítrio do indivíduo, outra importante Lei Divina, tão importante quanto a Lei do Karma.

Não estamos falando da ORIENTAÇÃO, mas da “IMPOSIÇÃO”. Ou seja, não é porque o pai gosta de futebol que o filho deve ser um exímio jogador, ao invés de um cabeleireiro, por exemplo. Não é porque a mãe adora ser dona de casa que a filha tem que seguir os mesmos passos e não possa ser motorista de caminhão. A imposição a situações anti-naturais constitui violência psicológica que pode trazer sérios problemas para a vida adulta.

A escolha da profissão, a decisão pelo casamento, a inclinação sexual são fatores que devem ser orientados pelos pais, mas jamais impostos, pois constituem tendências naturais embasadas em ampla experiência pregressa. São situações que, por suas tendências, o espírito experimentará e com as quais assimilará ainda mais conhecimentos para a sua próxima encarnação.

Muitos pais encontram dificuldades em entender os limites entre a orientação e a imposição. Para tentar entender melhor os limites da educação, basta que se dispam momentaneamente da posição de pais e se coloquem na posição de filhos, buscando perceber até que ponto gostariam que seus pais influenciassem em suas escolhas. Ao exercitarem esse pensamento, entenderão – de uma vez – que cada um de nós é um ser único, em evolução, passível de erros e acertos, com boas e más tendências, devendo respeitar e ser respeitado, e que ainda necessita vivenciar experiências para angariar novos conhecimentos. E, se reencarnamos em uma família é porque possuímos laços espirituais mais antigos e que necessitam de renovação, reparação ou continuidade, trazendo benefícios para todos os envolvidos.


Nesse sentido, a própria família deve ser encarada como uma escola onde aprendemos a amar, bem como um reencontro com companheiros de caminhada. Mas a família não se resumirá eternamente a esse conjunto de espíritos. Aprendendo a amar em família e a respeitar nossos familiares, um dia aprenderemos a amar a todos, indistintamente, com a consciência de nossa individualidade e respeitando a individualidade de nosso semelhante.

Nosso caminho é a União, e não a posse. Nossos filhos são nossos companheiros de jornada que, temporariamente contam com nossa orientação, mas, definitivamente, nossos filhos não são nossos!

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.
 

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