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O MITO DA INCONSCIÊNCIA


O início do caminhar dentro da Umbanda é sempre muito bonito! Vem cercado de expectativas, de grande entusiasmo e, também, de muitas dúvidas! “Como será o meu desenvolvimento?”, “Quem serão meus Guias e Orixás?”, e uma das questões mais recorrentes: “O que acontece com o médium quando está incorporado?”.

Já escutei de algumas pessoas o relato de que tinham muito medo de incorporar, pois achavam que “não voltariam mais”... Outras pensavam que iriam “apagar” completamente, retornando à consciência quando o Guia fosse embora... Dúvidas comuns, mas que causam grande preocupação aos novos médiuns umbandistas, e que, por isso, merecem explicação apropriada!

A Umbanda é uma religião onde muitas tradições e conhecimentos são repassados de forma oral. Nesse caso, o contato com os “mais antigos” normalmente se transforma em uma das maiores fontes de aprendizado. Só que não podemos esquecer que os nossos “mais antigos” também aprenderam com os seus “mais antigos”, e esses com outros, e assim por diante. Se, hoje em dia, muitos temas acerca do que acontece dentro dos terreiros ainda são cercados de mistérios, falta de entendimento, crendices e superstições, imagine, então como era na época dos “mais antigos” dos nossos “mais antigos”!

Naquela época, era natural que, quando alguém não soubesse responder a determinado questionamento sobre algo que seu Guia tivesse feito, saísse com a resposta: “Ele fez isso? Ah... não lembro de nada...” Respostas assim, eram uma excelente saída, já que, além de tirar do médium o peso da necessidade de responder sobre algo desconhecido, ainda aumentava a credibilidade acerca de sua incorporação! “Fulano recebe tão bem que não se lembra de nada!”. Com o tempo, a afirmativa da INCONSCIÊNCIA, sendo repassada de geração a geração, acabou assumindo o “status” de verdade absoluta. Depois de tantas repetições, essa crença ficou tão consolidada que passou a ser responsável por grandes conflitos no entendimento de médiuns mais questionadores, e também de grande fonte de insegurança aos mais sensíveis... “Como posso estar recebendo, se vejo e ouço tudo?” é o que costumam perguntar.

Para respondermos apropriadamente, temos que, primeiramente, explicar como ocorre a incorporação:

Para começar, nenhum espírito “entra” no corpo de médium nenhum. Afinal, só há um único espírito capaz de animar de fato um organismo humano: o do próprio médium que, reencarnado, possui todas as ligações fluídicas que possibilitam o comando do cérebro físico e, consequentemente, do restante do corpo. Fora isso, os demais espíritos, no máximo, podem exercer alguma influência sobre a mente do médium através da sintonia mental ou, como melhor explicamos, dos “campos vibratórios”. A esta influência, dependendo do grau de atuação, denominamos de “incorporação”, “encostamento” ou simples “aproximação”.

Para que um espírito se aproxime, possa “encostar” em um médium ou incorporar, é necessário, portanto, que os campos vibratórios do médium e do espírito estejam vibrando sintonicamente. Os campos vibratórios são formados a partir das vibrações irradiadas pelos pensamentos e sentimentos de ambos (médium e espírito). O que quer dizer que, se o médium está pensando em coisas completamente avessas ao que o espírito está pensando, a incorporação ficará muito difícil ou mesmo impossível. Essa é, inclusive, a base do DESENVOLVIMENTO MEDIÚNICO: Treinar a mente do médium a forçar a sintonia vibratória através da disciplina do pensamento (em outras palavras, CONCENTRAÇÃO). É por isso que o desenvolvimento mediúnico não leva o mesmo tempo para todo mundo! Uns tem mais facilidade; outros nem tanto. É por isso, também que, na fase inicial, quando o Guia consegue começar a se APROXIMAR e ENCOSTAR, o médium pode sentir tonteiras e, forçando um pouco, até mal estar, pois sua mente ainda não está acostumada a elevar a sua frequência vibratória e mantê-la pelo tempo necessário.

Uma vez estabelecida uma boa aproximação, o Guia passa a enviar para a mente do médium as suas impressões, pensamentos e orientações, propagando-as através dos campos sintonizados. A mente estando EXTREMAMENTE BEM SINTONIZADA, receberá as mensagens e as repassará ao mundo físico de maneira o mais fidedigna possível. Mas, como dizia Chico Xavier, nenhum médium é um telefone e, por isso, nossa mente pode – em maior ou menor grau – interferir sobre a mensagem recebida, de forma involuntária, sem intenção. Quando isso acontece, recebe o nome de ANIMISMO. Essa palavra vem de “anima”, que significa “alma”, ou o “self” de Jung. Ou seja, o animismo é uma manifestação do próprio inconsciente da pessoa, sem que ela queira. Já quando a interferência não é desse tipo, ou seja, quando o médium realmente quer “falar” em nome do Guia, aí deixa de ser animismo e passa a ser MISTIFICAÇÃO. Em outras palavras, o animismo é um fenômeno não intencional, natural e esperado, principalmente nos médiuns mais novos, ainda em desenvolvimento. O que se espera é que, com o desenvolvimento, a parcela anímica nas incorporações vá decrescendo contínua e paulatinamente, de modo que, futuramente, nas comunicações daquele médium haja preponderância dos pensamentos vindos da mente do Guia. Já a mistificação, ao contrário, é voluntária e constitui ato censurável, devendo ser combatida veementemente.

Mas por que motivo, afinal, o Guia quando começa a se aproximar não retira a consciência do médium?

Bom, mesmo quando há uma incorporação comum, ou seja, com os campos vibratórios bem sintonizados, mas mantendo a consciência ou a semiconsciência do médium, ocorre um desgaste psíquico natural, pois, afinal de contas, a mente está forçando uma condição diferente da usual, tentando calar seus próprios pensamentos para dar espaço à comunicação mediúnica. É o chamado “transe” ou “Estado Alterado de Consciência”. Esse desgaste exige ações mentais que, se forem ampliadas acima de determinado limite, alterarão substancialmente as atividades sinápticas e neuronais, podendo causar dor de cabeça, náuseas e desconforto (já se vê isso no próprio médium iniciante, desacostumado com a leve aproximação do seu Guia e que, às vezes já fica com dor de cabeça após a concentração). Por isso, mesmo sendo de forma consciente, a incorporação deve ser progressiva, para que o médium se acostume aos poucos com essa condição.

Para haver uma incorporação inconsciente, a ação da própria mente deverá ser ainda maior, apagando completamente os seus pensamentos e sentidos, tal como acontece no desmaio, ocasionando grande e abrupta diminuição das atividades cerebrais e podendo acarretar perda de neurônios, desconforto orgânico e mal-estar, além de requerer a utilização de quantidade de energia maior.

E essa questão da energia também é muito importante. Em trabalhos de Umbanda, às vezes é necessária a permanência do Guia incorporado por horas seguidas. Nesse período, ele está gastando energia do médium. Se essa incorporação for do tipo inconsciente, quando o Guia subir, pelo esforço despendido, o médium estará completamente exaurido, esgotado, com a mente cansada e, possivelmente, com grande dor de cabeça!

Por todo o exposto, pode ser que tenha restado a impressão de que a incorporação inconsciente seja impossível. Não, não é! Mas, sendo algo que exige muito do médium (em termos físicos e vibratórios), ela só acontece se realmente houver necessidade que a justifique. Essa necessidade é sempre bem medida pelos nossos Guias. E ela se justifica quando a mensagem a ser transmitida possui tanta importância que não comportaria qualquer tipo de interferência anímica. Mas, mesmo assim, para evitar o desgaste psíquico extremo, o Guia saberá dosá-la, aplicando-a somente por alguns minutos, durante os momentos em que for necessária, e o próprio médium nem perceberá que esteve inconsciente.

No passado, no início da Umbanda, quando os Guias tinham que começar a estabelecer as bases de uma religião nova, esse recurso era mais usado, pois não poderia haver determinados equívocos. Hoje em dia, não há mais essa necessidade, já que os médiuns estão mais voltados ao estudo, as bases da religião já estão firmadas e não há, na prática, outras vantagens na perda da consciência.

Como assim, não há vantagens? Não seria muito melhor se nossos Guias incorporassem e pudessem sempre tirar nossa consciência? Bom, sinceramente, isso poderia trazer maior confiança para os médiuns mas, ao mesmo tempo, os privaria da melhor parte, que é aprender com os seus Guias e com os conselhos que eles dão para os outros. Impediria que cada médium conhecesse seu Guia, sua forma de trabalhar, suas opiniões, seus métodos, e ainda exigiria que, sempre que seu Guia quisesse lhe transmitir um recado tivesse que usar outra pessoa como intermediária (expondo a vida do médium desnecessariamente). E tudo isso só pra satisfazer nossas dependências psicológicas e falta de fé! Não compensa!

Atualmente, portanto, a regra é que quase a totalidade das incorporações sejam de forma consciente ou semiconsciente. A consciente é aquela que o médium vê e ouve tudo, e depois do trabalho permanece com a lembrança completa do mesmo. A semiconsciente é aquela que, como na primeira, o médium vê e ouve tudo durante o trabalho mas, após o término do mesmo, as lembranças vão se apagando, ficando apenas o que de mais importante houver acontecido para si. Esse estágio de semiconsciência pode ser adquirido com treino e com o passar do desenvolvimento mediúnico.

Se a inconsciência, da maneira como falam por aí, é mito, por que muitas pessoas “mais antigas” não explicam dessa forma? Simples! Porque elas também ouviram de seus “mais antigos” que o médium bem incorporado, necessariamente, perde a consciência, e repassaram essa mesma informação, porque, em algum momento, acharam que, se assumissem serem conscientes ou semiconscientes, teriam sua incorporação desacreditada! E hoje, mesmo com tantos estudos e explicações sobre o tema, não voltam atrás porque estariam desmentindo a si próprias, em algo que juraram de pés juntos ser verdadeiro! A psicanálise explica esse comportamento!

Um outro mito que tem que ser derrubado é justamente a crença de que a incorporação inconsciente é melhor que a consciente ou a semiconsciente. Eu diria justamente o contrário: Se o Guia tem que apagar a mente do médium para trabalhar, é porque sua mente tende a atrapalhar sua ação.

Nos meus mais de trinta anos de Umbanda, já vi os Guias fazerem coisas inacreditáveis sem recorrerem à inconsciência, mas, confesso que, no princípio, passei pela mesma insegurança dos médiuns novos que, mesmo com o Guia se aproximando, encostando e incorporando, muitas vezes achava que não estava recebendo, porque estava vendo e ouvindo tudo. Mas aprendi que o segredo é relaxar... É deixar fluir... E, já que a ação do Guia é sobre a mente, temos só que deixar a mente tranquila, deixar a coisa acontecer... Sem medos, sem vergonha, sem nos fixarmos na ideia de “sou eu”. Quanto mais nos fixarmos nessa ideia, mais dificultaremos o progresso do desenvolvimento.

E para não falar que nunca tive uma experiência de inconsciência, já tive sim: aconteceu num momento em que eu não esperava, incorporado com a criança, e que, só vim a saber porque depois comentaram comigo o que o Erê fez. Na minha mente ficaram registradas a ação anterior e a posterior ao acontecimento, como se fossem ações sucessivas, mas no meio teve essa, que para mim não existiu. Mas por que ele tirou a minha consciência justamente naquele momento? Porque se eu estivesse consciente, talvez, animicamente, o tivesse impedido de fazer o que era necessário.

Resumindo, o normal de todo médium é - sim - testemunhar o seu próprio trabalho, e aprender a conviver com isso, dominando a própria mente, para que, cada vez mais, haja menos animismo. Com o tempo, o médium conseguirá delinear com maior clareza o que é do seu pensamento e o que é do pensamento do Guia comunicante, e conseguirá servir de bom intérprete às suas ideias, esforçando-se por permanecer como expectador durante todo o seu trabalho mediúnico. Terá que entender que, apesar de ser uma religião mística por natureza, a Umbanda também tem sua face racional e mesmo científica, e que nossos Guias não ultrapassam as barreiras das leis naturais apenas para satisfazer nossas vontades...

Mas, com tudo isso, tenho certeza de que chegará o dia em que você, médium, passará a ter maior confiança em si e segurança no seu trabalho mediúnico! Esse dia chegará quando, através de algo que seu Guia fizer, uma pessoa ficar curada de algo incurável pela medicina, ou quando de sua boca saírem palavras e conselhos que você, por si só, não falaria, com tanta clareza e sabedoria... E sabe o que é o melhor disso tudo? Você estará lá para ver!

Amplexos,

Tata Luis

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.
 

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