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VAMOS FALAR SOBRE "ABIKUS"?


A palavra “abiku” vem de ABI = NASCER e IKU = MORTE. Ou seja: Abiku é aquele que nasceu para morrer! Esse termo é utilizado nas tradições yorubás para designar aquelas crianças cuja gestação não se completa, ou que desencarnam antes dos nove anos de idade.

Acreditam os Yorubás que no mundo espiritual existe uma “sociedade Abiku”, ou seja, uma espécie de “confraria” de espíritos que não gostam de reencarnar, e que, quando um deles tem que nascer, combinam previamente entre si a data e a hora que retornará ao “Orun” (mundo espiritual).

Dizem as lendas que o retorno de um abiku ao mundo dos espíritos, acontecerá quando ele tiver contato com algum elemento ou realizar alguma ação que também tiver sido combinada antes de seu nascimento, como o fator que o levará a morte. Por isso, na África, quando as mulheres engravidavam, procuravam consultar o Babalawô para saber se seu filho seria abiku e, caso fosse, quais seriam os objetos e ações proibidas. Através da consulta a Ifá, então, era recomendado, por exemplo, que até tal idade a criança não tivesse contato com faca, ou com água de rio, ou com fogo, ou com qualquer elemento que o jogo tivesse identificado como interdição para aquela criança, por ser um provável meio de retorno ao mundo dos espíritos.

Em alguns casos mais complicados, seria possível, por exemplo, que o Babalawô tivesse identificado que o bebê abiku - ainda em gestação - tivesse combinado com seus amigos espirituais retornar ao “Orun” ao ver a luz pela primeira vez ou ao sentir o ar dentro do peito... Nesses casos, Ifá recomendava a realização de “ebós” e trabalhos espirituais, para evitar a morte da criança ao nascer.

No passado, somente as rezas e os “ebós” poderiam salvar uma criança abiku de retornar ao mundo dos espíritos. Hoje, além dos recursos espirituais, há o avanço da medicina, e muitos abikus conseguem sobreviver ao nascimento, chegar à idade adulta e viver uma vida normal. Mas, mesmo sobrevivendo, há coisas que são comuns em pessoas abikus, como a facilidade de contato com espíritos e a fragilidade física. São pessoas que facilmente sentem presenças espirituais, tem sonhos perturbadores, veem espíritos e ouvem vozes e que, em vários momentos, podem ter ficado muito doentes ou mesmo à beira da morte, principalmente nos primeiros anos de vida. Em outras palavras, são pessoas que facilmente transpõem os limites entre os dois mundos, como se os laços que as prendem ao mundo material não fossem tão rígidos, ou que fossem, pelo menos, “mais frouxos” que os das outras pessoas.

Os abikus também podem ser reconhecidos pela história pregressa da mãe ou da família. Dizem os yorubás que há grande probabilidade de haver abikus em famílias onde, comprovadamente, já houve muitos abortos espontâneos ou morte de crianças pequenas. Dizem eles que, nesses casos, o mesmo espírito está sendo encaminhado para o reencarne há várias gerações, mas sempre encontra uma forma de voltar ao mundo espiritual precocemente. Também pode ser sinal de que o bebê será um abiku no caso de gravidez de mãe que já tenha perdido vários bebês em gestações anteriores.

Um outro fator indicativo é que abikus, invariavelmente, são gerados por mães filhas de Iansã, afinal, Oyá “é mãe de nove eguns”, e suas filhas - como a Orixá dos ventos -, em certas ocasiões, também podem gerar filhos que tendam a ser eguns (desencarnados)! Mas, antes que haja o desespero das filhas de Oyá, é bom explicar que isso não quer dizer que todas as suas gestações serão de abikus. Na verdade, isso acontece raramente e tem relação com o tipo de Iansã que a mãe carregue, suas condições espirituais e vibratórias naquela fase da vida, a missão e o karma da criança e mais um monte de fatores que precisam ser combinados para que nasça um abiku. Ou seja, não é tão fácil assim! E, acontecendo, há recursos que podem auxiliar a mantê-lo na Terra (rezas, trabalhos espirituais e a própria medicina).

Particularmente – e isso é só uma observação pessoal -, eu, como filho de uma filha de Iansã, acrescento que Deus deve saber que, para receber em seu ventre um espírito cujo karma seja tão complicado, que requeira tantos cuidados e que irá necessitar de mãe tão forte e corajosa, é preciso ser mulher de fibra e, por isso “pede emprestadas” suas filhas à Iansã, pela certeza de sua capacidade, rs, rs, rs!

Mas é bom esclarecer um ponto muito importante: Nem todas as gestações complicadas e nem todas as crianças que desencarnam cedo são abikus; assim como nem todos os abikus morrem ainda crianças! Por isso, independente de haver a ocorrência dos fatores citados acima, toda gravidez requer cuidados, e toda criança precisa de atenção!

Mas, voltando aos abikus, dividem-se eles em nove graus, de acordo com a potencialidade de seu retorno ao Orun e, em alguns casos, podendo mesmo, colocar em risco até a vida da mãe. Do mais crítico ao menos perigoso, são eles:

1º GRAU: Gravidez de gêmeos. Morrem os dois bebês e a mãe durante a gravidez, no parto ou logo depois.

2º GRAU: Gravidez de gêmeos. Morrem os dois bebês ou um bebê e a mãe durante a gravidez, no parto ou logo depois..

3º GRAU: Gravidez de gêmeos. Morre apenas um bebê ou a mãe no parto ou logo depois..

4º GRAU: Gravidez simples. Morre o bebê e a mãe durante a gravidez, no parto ou logo depois..

5º GRAU: Gravidez simples. Morre só o bebê ou só a mãe durante a gravidez, no parto ou logo depois..

6º GRAU: Gravidez problemática. O bebê nasce e morre no primeiro ano de vida.

7º GRAU: Gravidez problemática ou não. O bebê nasce e morre até os três anos de vida.

8º GRAU: Gravidez normal. O bebê nasce e morre até os sete anos de vida.

9º GRAU: Gravidez normal. O bebê nasce e morre até os nove anos de vida.

É bom reafirmar que as descrições acima NÃO SÃO fatos inflexivelmente definidos. Então, quando falamos “morre”, deve ser entendido que “poderá morrer”, caso lhe falte os recursos espirituais e medicinais necessários para a sobrevivência. Havendo tais recursos, a situação da criança pode ser modificada e, um caso que seria de 3º grau, por exemplo, poderá se transformar em caso de 7º ou 8º graus atenuados, sem haver o desencarne.

Não precisamos discorrer – e nem temos capacidade para isso – sobre os recursos de que nossa medicina dispõe hoje em dia. Mas, em termos espirituais, além dos “orôs” (rezas) e “ebós” recomendados por Ifá (e que são realizados somente no Candomblé), há alguns trabalhos que podem ser realizados na Umbanda (e que não serão descritos nesse texto) e outros procedimentos que também podem ser adotados. Um desses procedimentos – e que era adotado com frequência pelos povos yorubás - é a troca de nome da criança, passando-se a chamá-la por um nome que reafirme a sua ligação com a vida e que diminua no espírito a “vontade” de se reencontrar com seus amigos abikus. São exemplos de nomes em Yorubá, utilizados com esse propósito:

  1. Aiye Dun - a vida é doce

  2. Aiye Lagbé - ficamos no mundo

  3. Ajuki - o morto viverá

  4. Akisotan - não existe mais mortalha para o sepultamento

  5. Akuji – o que está morto desperta

  6. Apara - aquele que vai e vem

  7. Ayomu mo - vai pra o céu e volta

  8. Banjokô - sente-se e fique comigo

  9. Duro-Orí-Iké - fica, espere e veja como serás mimado

  10. Duro – me atende e fica

  11. Duro Jayé – continua a gozar a vida

  12. Durosimi - espere para me enterrar quando eu morrer

  13. Durowoju – fica para olhar nos meus olhos

  14. Ení Lolobo – alguém partiu e voltou

  15. Enú- Kún-Onipê - o consolador está cansado

  16. Inu Kuno naipe – estou cansado (a) de receber pêsames

  17. Kojeku – não consinta em morrer

  18. Kokumô – não morras mais

  19. Kosile – não vai enterrar mais

  20. Kosokô - não há enxada (para cavar o túmulo)

  21. Kumapayí – a morte não mata mais este aqui

  22. Kuti – Não está totalmente morto

  23. Maku – não morre mais

  24. Malómo - não vá embora novamente

  25. Matnami – não larga mais a vida

  26. Oku se Hindê – o morto que retorna

  27. Omotundé – a criança voltou.

  28. Sinmi – é difícil ficar enterrado

  29. Tijú-Icú - envergonhe-se de morrer

  30. Toyé – se ficares, receberás homenagens

Independente de por qual método a vida do abiku tenha sido preservada - se por intercessão da medicina ou por uso de recurso espiritual -, o êxito só acontecerá se ele tiver sido amparado por Xapanã (Omolu, Obaluaiê) ou por Iansã. Esses são os Orixás que, de fato, podem salvar o abiku do desencarne, resgatando-o – em linguagem figurada – do convívio com os mortos, independente de quem seja seu próprio Orixá de cabeça. Mas, como isso acontecerá e o que será necessário fazer são explicações que não cabem no corpo deste texto.

Finalizo este artigo dizendo que há muitas informações sobre este tema, disponíveis em fontes variadas, que podem enriquecer o conhecimento, embora, muitas delas, sejam contraditórias entre si. Algumas afirmam que a problemática do abiku só pode ser solucionada desta ou daquela maneira, dentro de TAL corrente religiosa... Afirmo que respeitamos a todas as convicções e tradições, mas temos que lembrar que abikus existem na África, no Brasil, no Japão, na Sibéria e em qualquer parte do mundo; dentro de famílias candomblecistas, judias, evangélicas, budistas, umbandistas ou ateias e, crer que o auxílio espiritual para tal problemática só possa ser obtido através de um único caminho, um único tipo de ritual ou uma única religião, pode ser reflexo de limitação de visão. Nesse sentido, deixo claro também que, em nossa linha doutrinária, umbandistas que somos, a forma de identificação e tratamento de abikus é bastante diferente das utilizadas em tradições de nação. São métodos ensinados diretamente por nossos Pretos-Velhos e, como temos constatado nos últimos anos, tem permitido Deus que, através deles, várias crianças ainda estejam entre nós!

QUEM SOU:

-Tata Luis;

- Filho e neto de filhas de Iansã;

- Bebê subsequente a alguns abortos espontâneos;

- Quase morri no sétimo mês de gestação, em uma tentativa de nascimento prematuro;

- No nono mês de gestação, com minha mãe sem dilatação e eu quase morrendo outra vez, tive que nascer de uma cesariana emergencial (minha mãe brincava, dizendo que “eu não queria nascer”);

- Meu nascimento provocou parada cardiorrespiratória e choque em minha mãe, deixando-a entre a vida e a morte (ela dizia que chegou a se ver saindo do corpo e entrando em uma espécie de túnel);

- Quase morri aos dois meses de vida, tendo que ser submetido a cirurgia emergencial;

- Com desmaios constantes e risco de morte, passei meus dois primeiros anos sob o controle de medicamentos, para evitar que “apagasse”;

- Caí e quebrei a cabeça aos três anos e, depois, outra vez, aos sete;

- Com quatro anos comecei a sair do corpo conscientemente e a viajar no mundo espiritual;

- Sempre senti a espiritualidade e os espíritos muito próximos e muito reais, como parte da minha vida;

- Aos 14 anos fui atropelado.

Sobrevivi a tudo isso, e hoje me utilizo da relativa facilidade de comunicação com os espíritos para tentar ser útil e auxiliar. Agradeço à medicina por estar vivo, mas agradeço, sobretudo, a Mãe Iansã que, mesmo não sendo meu Orixá de coroa, me abençoou, me pegou no colo e salvou minha vida; e é graças a ela que escrevo essas linhas!

Eh Parrei, Oyá!!!

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.
 

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