LIDERADOS E LIDERANÇAS
- TATA LUIS
- 23 de mar. de 2017
- 8 min de leitura
Sem rodeios, dessa vez vamos direto ao assunto: você sabe por que o seu terreiro necessita da sua colaboração na realização de tarefas físicas, como limpeza, manutenção, organização administrativa, trabalho na cantina e etc? Basicamente por um único motivo: o seu terreiro não tem condições financeiras de contratar mão de obra externa para realizar todas essas atividades; e elas são necessárias e imprescindíveis! E, se não forem feitas, a casa ACABA! Sim! É isso! Não tem meio-termo! Ou essas atividades são feitas por alguém, ou não há como manter as portas abertas! Sendo assim, para continuar atendendo a todos (incluindo a você), ou o terreiro conta com a sua ajuda ou é obrigado a dobrar ou triplicar o valor das mensalidades dos médiuns para poder contratar mão de obra externa. Simples assim! Não há outra forma... E temos que convir, o aumento das mensalidades não pode ser considerado nem a única e nem a melhor solução, certo?

Até aí, tenho certeza de que o entendimento é unânime e que todos compreendem e concordam. O problema começa quando saímos da conversa e vamos para a prática. É no dia a dia, durante a necessidade de realização de determinadas tarefas, que são percebidos os problemas...
Sem dúvida, há os que realizam suas tarefas com compromisso e alegria, mas há também, infelizmente, os que reclamam de tudo, os que acham que estão fazendo um favor à direção da casa, os que acham que estão sendo explorados, os que colocam qualquer outro compromisso à frente da sua tarefa, os que arrumam desculpas, os que simplesmente não comparecem, os que ficam comparando sua cota de trabalho com o trabalho dos outros, etc, etc.
Para mim, esses tipos de comportamento só tem uma única causa: falta de CONSCIÊNCIA; e é por isso que vou tentar explicar melhor o que os olhos não veem, o coração não sente e a consciência não registra!
Bom, além de estar colaborando para que a casa não feche as portas, você sabe o que mais acontece enquanto você está dentro do seu templo realizando as atividades materiais? Você NUNCA está sozinho! Você está sendo observado pelos seus Guias; e eles veem com enorme carinho o seu esforço por manter em boas condições a CASA DELES, o local onde se encontram semanalmente com você. E, como uma mão lava a outra, tenho certeza que, na “hora do sufoco”, quando a coisa apertar para o seu lado, seus Guias terão ainda maior satisfação em tentar te ajudar - e o mais rápido possível -, não como troca de favores, mas porque terão visto o quanto você está se esforçando por cumprir suas obrigações e a força que está fazendo para colocar de lado o orgulho, a preguiça, os afazeres pessoais, o comodismo e o egoísmo, ao dedicar aqueles minutos ao trabalho não remunerado em função da espiritualidade. E não se engane: em tudo na vida, “quanto maior o esforço, maior a recompensa!”.
Além disso, enquanto você trabalha fisicamente dentro do seu terreiro, sua aura, suas energias e seu campo vibratório estarão sendo atuados pelas vibrações naturais da sua casa espiritual, pelas defesas “antissépticas” das firmezas da tronqueira e pelos amparadores que estarão ali, trabalhando invisivelmente durante esse período. Como resultado, muitas larvas astrais poderão ser desagregadas de seu períspirito, seus Guias poderão atuar diretamente sobre suas vibrações (mesmo sem incorporarem) e, no fim de tudo, pode ser que você saia completamente descarregado de energias tóxicas que poderiam lhe causar dificuldades, acidentes e doenças (em você ou em pessoas próximas). Isso sem falar nas intuições patrocinadas pelos amigos espirituais, para solucionar problemas pessoais, e que acontecem, naturalmente, durante a realização de tarefas simples; enquanto se varre o chão do terreiro ou se conserta o vazamento da pia, por exemplo.
É possível, ainda, que uma determinada limpeza energética que seu Guia tenha iniciado sobre você durante a sessão, necessite, para finalizar, de uma irradiação complementar, a qual acontecerá em outros momentos em que você estiver no terreiro, mesmo fora de um trabalho espiritual.
Por essas explicações, fica claro que o trabalho físico no terreiro não deveria ser considerado como OBRIGAÇÃO, mas sim como OPORTUNIDADE, pois, apesar de você estar ajudando o terreiro a não fechar as portas, na verdade o maior beneficiado não é o terreiro, mas sim você que, além de continuar tendo uma casa a lhe amparar, será vibrado, descarregado de sujeiras espirituais, energizado positivamente, intuído e ainda conseguirá o reconhecimento de seu esforço pelos seus próprios Guias.
Sendo assim, entendendo-o como OPORTUNIDADE, qual o sentido em querer comparar a sua cota de trabalho com a de outro irmão? Qual o sentido de “vigiar” se o outro está faltando ao trabalho que deveria realizar? Não fica claro que QUEM NÃO COMPARECE AO TRABALHO É QUE ESTÁ PERDENDO MUITA COISA? Particularmente, confesso que em mais de trinta anos de Umbanda, vejo reclamar mais da vida, dos insucessos e da quantidade de problemas justamente quem menos coopera com a sua casa espiritual! E, por tudo o que já falei, não acredito ser coincidência! Pense nisso!
Pelo exposto, uma pessoa CONSCIENTE fica, na verdade, feliz e ansiosa por poder cooperar nas tarefas de seu terreiro! Ela NÃO enxerga isso como algo enfadonho, NÃO inventa desculpas para faltar, NÃO vigia e nem se irrita se os outros não trabalham e NÃO se sente em paz com a própria consciência quando não pode estar presente, pois entende que, além de ser uma forma de demonstrar seu amor e gratidão aos seus Guias (cuidando da CASA DELES), também é uma excelente maneira de receber auxílio espiritual, como uma complementação do que já é realizado nas sessões mediúnicas.
Contudo, o desenvolvimento dessa consciência nem sempre ocorre de forma natural, e é recorrente na maioria dos terreiros a dificuldade em se obter a cooperação espontânea de seus integrantes para a realização de trabalhos materiais, pois muitos pensam que o auxílio espiritual acontece somente durante as sessões, enquanto estão “recebendo santo”...
Em nossa casa, por exemplo, visando minimizar esse problema, instituímos o sistema de “grupos-tarefa”, que nada mais é que uma forma de melhor distribuir as atividades, procurando respeitar a disponibilidade, as preferências e as aptidões de cada um para a realização dos trabalhos. Cada grupo-tarefa tem como foco de ação uma atividade diferente (faxina, manutenção, etc) e possui um LÍDER, que é o responsável pela distribuição e pela organização das tarefas a serem realizadas. E, cá entre nós, de todas as funções possíveis, a de “líder” é a mais difícil de ser desempenhada, pois, além de exigir conhecimento prático das atividades que coordena, requer também que a pessoa saiba encontrar o ponto de equilíbrio entre “necessidade de executar as tarefas” e “quantidade de trabalhadores disponíveis”.
Da mesma forma que há liderados conscientes, que executam suas tarefas com comprometimento e amor, e liderados inconscientes, que ainda não aprenderam a importância das suas ações para a casa e para si mesmos, há líderes cientes da melhor forma de coordenar e outros que ainda não entenderam a essência da liderança e, por isso, também necessitam de orientações sobre “como fazer”.
Como eu disse, liderar é muitíssimo difícil, pois o líder está sempre sobre o “fio da navalha”, tendo que fazer com que “a coisa funcione” e, ao mesmo tempo, lidando com pessoas, cada qual com suas vivências, manias, qualidades, limitações, facilidades e dificuldades. E, se não souber bem equilibrar todos esses fatores, poderá não conseguir o êxito das tarefas e ainda ser malvisto pelos seus liderados ou, pelo menos, enxergado como alguém autoritário, impaciente ou injusto. Por isso, é necessário o líder ter o conhecimento de como agir com essas situações.
Para começar, embora as tarefas do grupo necessitem ser realizadas, o líder deve entender que seus liderados devem ser vistos como INDIVÍDUOS, ou seja, como pessoas únicas, cada uma com um conhecimento diferente sobre a forma de realizar as tarefas, com limitações pessoais (físicas e de tempo) e com graus de entendimento diferentes. Levando em consideração tudo isso, não há como lidar com todos da mesma maneira, de forma generalizada, impessoal; e isso é um dos maiores desafios que o líder deve enfrentar, pois tem que agir no PESSOAL sem ferir os interesses do COLETIVO.
E é justamente essa a característica que define um bom líder. Enquanto não conseguir encontrar esse “ponto de
equilíbrio”, estará exercendo CHEFIA e não LIDERANÇA. Aliás, é bom sabermos distinguir uma coisa da outra, pois os limites são muito tênues, de difícil visualização e, às vezes, as coisas podem acabar se misturando! O chefe é aquele focado apenas nos resultados. Ele exige o cumprimento dos deveres, distribui as tarefas sem levar em consideração as opiniões de seus subordinados e pune facilmente quando não obedecido. Já o líder procura CONSCIENTIZAR sua equipe sobre a necessidade da realização do trabalho; orienta sobre como fazê-lo, participa de sua execução; escuta as ideias e opiniões de todos sobre a melhor forma de dividir as tarefas e, antes de qualquer ato de advertência, procura entender o que motivou a falha, tentando enxergar quais são as dificuldades que a pessoa está enfrentando e procurando, junto com ela, a melhor solução para o bem de todos.
O chefe normalmente gera descontentamento dentro do grupo, desinteresse em relação ao bom cumprimento das tarefas, desmotivação e, na maioria das vezes não é bem visto pelos seus subordinados. Enquanto isso, o líder promove satisfação por pertencer à equipe, interesse em aprender e fazer melhor, motivação e, normalmente, é admirado pelos seus liderados.

Não é foco desse texto explicar aos líderes como resolver, na prática, este ou aquele problema; mas é consenso que a maior parte das dificuldades é gerada por duas questões: a falta de consciência do liderado sobre suas atribuições e a falta de habilidade do líder em despertar essa mesma consciência em quem ainda não a possui. Um dos resultados da combinação dessas duas “faltas” é, normalmente, o excesso de advertências aplicadas sobre a equipe. Quanto menos consciência os liderados tiverem, maior a probabilidade de faltarem com suas obrigações e, quanto menos habilidade o líder tiver em solucionar esses problemas, maior a probabilidade de tentar resolvê-los através da aplicação de penalidades. Quando essa situação se instala, inicia-se o “ciclo vicioso”. A cada dia os liderados ficarão mais insatisfeitos e, para tentar refrear, o líder mais os advertirá. Com isso, conclui-se que o êxito de um grupo não pode ser medido pela maior quantidade de advertências imputadas. Pelo contrário! Quanto menor for esse número, maiores são as evidências de que os liderados têm a tal da consciência e de que o líder está exercendo uma boa liderança.
Logo, a META de todos é que a quantidade de advertências seja ZERO ou próxima disso! Mas isso não significa que não possam ser utilizadas. Sim! Elas podem e devem existir para coibir descasos abusivos, mas não devem ser aplicadas indiscriminadamente, como o único, o primeiro ou o principal meio de trazer a coisa novamente para o eixo! A advertência é como o antitérmico; deve ser usada em casos imprescindíveis, quando há febre alta. Mas o ideal não é ter que usar o remédio, e sim evitar o que causa a febre. Por isso, na verdade, a solução para este problema cíclico de desmotivação e advertências parte da prevenção. Antes que se chegue nesse ponto crítico, o líder deve estudar seus liderados e suas deficiências, identificando aqueles que ainda não tem a bendita da consciência sobre a importância de sua participação, e buscar, a partir daí, usar as ferramentas necessárias para motivá-los e conscientizá-los.
É! Não é fácil! E nenhum bom líder se constrói da noite para o dia. É preciso desenvolver as habilidades interpessoais, inteligência emocional e a capacidade de dirimir conflitos. Mas concordo que tudo fica mais fácil se TODOS estiverem dispostos a fazer o seu melhor em prol do objetivo final que é o bem-estar do terreiro. E, para isso, a COLABORAÇÃO é fator fundamental! Sem ela, cada vez mais o entendimento fica comprometido, os relacionamentos desnecessariamente estremecidos e as tarefas essenciais da casa mal realizadas.
Estamos todos no mesmo barco! Temos que remar juntos para chegarmos ao porto seguro! Uns sabem remar melhor de um jeito e outros de outro; mas temos que encontrar o melhor compasso, o ritmo ótimo! E temos que QUERER encontrá-lo! Caso contrário, navegamos em círculos ou, na pior das hipóteses, ficamos à deriva!
Amplexos,
Tata Luis