top of page

DÁ PRA FAZER UM TRABALHINHO?


Muitas pessoas veem a Umbanda como uma cartola de mágico, em que basta fazer um pedido, pronunciar umas palavras e, dali, sairá uma receita de um trabalhinho espiritual que vai resolver tudo.

E muitas vezes, é possível mesmo que haja algum tipo de procedimento espiritual capaz de auxiliar em determinados casos, afinal, a Umbanda é uma religião mística por natureza, e faz parte de sua rotina a manipulação energética e vibratória, utilizando elementos físicos como flores, velas, pedras, etc. Mas há também uma outra coisa chamada “ética espiritual”, de forma que, nem sempre o que PODEMOS fazer, nós realmente DEVEMOS fazer.

E qual é o limite entre o “poder” e o “dever”? Em primeiro lugar, temos que usar o BOM-SENSO e, havendo dúvidas, é só lembrar do famoso “fazer ao próximo somente aquilo que gostaria que fizessem para si”, mas tomando o cuidado para manter a “visão elevada”, imparcial, para não correr o risco de confundir as coisas e tomar a decisão errada.

Não vou nem entrar em situações que claramente prejudicam a alguém, como aqueles trabalhos propositadamente pedidos contra uma pessoa, desejando seu mal, por raiva ou inveja; ou mesmo aquelas amarrações feitas por paixão. Trabalhos desses tipos não são e nunca serão realizados na Umbanda! Eles violam o livre-arbítrio de alguém e contrariam tanto o bom-senso quanto o “não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem a si”. Por serem contrários ao que a Umbanda ensina, não vamos nem nos deter analisando-os. Vamos passar somente aos que podem suscitar dúvidas:

1ª situação: Em nossa casa, não fazemos qualquer tipo de trabalho espiritual para um consulente que pertença a outro terreiro. Entendemos que, pertencendo a outra casa, é ao seu orientador espiritual que devem ser dirigidos pedidos de “trabalhinhos”, já que ele é o responsável pela condução de seu desenvolvimento mediúnico, é ele que conhece o histórico de tudo o que já foi feito pelo seu médium, de quando foi feito, dos próximos passos a serem dados e, certamente, conhece sua situação vibratória com muito maior profundidade. É esta pessoa que deve, portanto, ser procurada para resolver qualquer problema energético que esse consulente tenha. Em contrapartida, o consulente deve ter por ela respeito, confiança e lealdade, como um filho tem pelo pai;embora já demonstre - só por estar nos procurando - que já está faltando com um desses três itens.

A pessoas assim, podemos até aconselhar e orientar sobre qualquer assunto (sentimentos, profissão, família, etc), mas nos detendo apenas nos conselhos acerca de atitudes a serem tomadas, sem receitarmos qualquer tipo de trabalho que mexa com energias, até mesmo para não atrapalharmos e nem interferirmos, involuntariamente, em algo que o seu pai ou mãe de terreiro já esteja fazendo por ele. Não temos esse direito e seria irresponsabilidade de nossa parte!

Somos da opinião de que “panela em que muitos mexem, o caldo desanda”. Por isso, recomendamos ao consulente que procure ser franco e conversar com seu pai ou mãe espiritual sobre as suas dúvidas e inseguranças; que busque nele todas as orientações que se refiram à sua vida espiritual e ao seu equilíbrio energético; e que procure ver se não está sendo precipitado demais em procurar outro lugar para tentar resolver sua situação, afinal há casos cujos resultados são demorados mesmo...E alertamos que, caso realmente ache que não se adequa mais à sua casa atual, que seja justo consigo e com o seu dirigente e que, educadamente, comunique-lhe seu afastamento, e comece a procurar um novo rumo. A partir daí, segundo nossa ótica e ética, poderá buscar socorro espiritual onde quiser, pois não terá mais vínculos com qualquer família espiritual.

Aliás, essa nossa postura é a que nós também gostaríamos que outros terreiros tivessem com relação a filhos de nossa casa que porventura os fossem procurar. É o tal do “fazer aos outros o que gostaria que fizessem a si!”.

2ª situação: Não fazemos trabalhos espirituais para quem não nos deu permissão para fazê-los, mesmo que, notadamente, esses trabalhos pudessem ajudar.

É comum um consulente chegar chorando, pedindo para fazer alguma coisa que atue sobre outra pessoa, para que ela pare de beber, ou de usar drogas, ou para que fique menos violenta, ou que fique mais em casa, ou para dar mais dinheiro ou atenção à família, ou para a afastar de más companhias, ou por qualquer outro motivo que o tal consulente ache justo.

Aparentemente, tudo isso que se pede é pelo bem de todos, inclusive da própria pessoa por quem se está pedindo, podendo dar a impressão de que não haveria nada demais em se realizar algum trabalho espiritual. Mas é aí que entra a boa reflexão! Independente de as ações daquela pessoa não serem corretas, são escolhas DELA! E devem ser respeitadas como tal! Isso se chama “livre-arbítrio”, um dom dado pelo Criador que permite que cada um seja livre para fazer o que quiser da sua vida, mas obrigado a colher todas as consequências de seus atos. A esta pessoa, no máximo, o que se pode fazer é aconselhar, orientar e sugerir que ela própria busque auxílio espiritual, psicológico ou terapêutico, e deixar ao seu critério os rumos que irá tomar dali por diante.

Se, por acaso, suas atitudes colocam em risco outras pessoas, que sejam então utilizados os métodos legais para inibi-la, ou que sejam tomadas as devidas ações defensivas, pois todos têm o direito e o dever de se defender. Nesse caso, além dos meios legais, poderíamos até fazer algum “trabalhinho” para auxiliar a defesa de quem se sente ameaçado e que tenha nos pedido ajuda, mas jamais poderemos fazer algo para invadir a mente de uma outra pessoa, querendo modificar seus pensamentos, por mais errados que sejam.

Aliás, notamos que, em muitas vezes, situações desse tipo poderiam ser resolvidas de outra forma, mas as pessoas preferem procurar a “solução mágica”, capaz de poupá-las de alguma ação que esteja ao seu alcance fazer ou das quais elas sejam responsáveis. É o caso da mãe, por exemplo, que nunca ensinou limites ao seu filho, e hoje quer que faça um “trabalhinho” para que ele seja mais responsável; ou o caso da esposa permissiva, que não reage aos insultos do marido por conta de dependência emocional ou financeira, e que pede um “trabalhinho” para torná-lo mais gentil, quando, na verdade, suas próprias ações seriam de fundamental importância para sua libertação dessa situação de dependência. É o caso também do marido que pede que se faça um “trabalhinho” para que a esposa fique mais em casa, mas não percebe, por exemplo, que o seu próprio comportamento irritadiço, inconveniente, ciumento, possessivo é, às vezes, o maior causador do afastamento.Enfim, se formos pesquisar, veremos que muitas situações poderiam ser resolvidas pela própria pessoa que pede o tal do “trabalhinho” para alguém, se não preferisse terceirizar a sua ação utilizando a magia para modificar o pensamento do outro.

Agora, para completar, visualize que VOCÊ seja o outro, aquele por quem alguém pediu para fazer um “trabalhinho”, e que acaba de chegar aos seus ouvidos que sua mãe, seu pai, sua esposa ou seu filho procurou um terreiro para fazer uma magia tentando modificar suas escolhas, sua forma de ser, de pensar ou de agir! Como você se sentiria? Invadido em sua privacidade, imagino; e, provavelmente, não iria gostar. Iria considerar abuso! E eu diria: com toda razão! Mais uma vez, é a história do “não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem para si”.

Essa explicação acima engloba o aspecto ético da coisa, mas há ainda o aspecto energético-vibratório. Para que um “trabalho” dê certo para alguém, é necessário que o campo vibratório desta pessoa esteja minimamente receptivo às vibrações que serão irradiadas do trabalho. Uma pessoa que não deseja que se faça qualquer coisa por ela, simplesmente não assimilará as vibrações positivas emanadas. Terá sido pura perda de tempo de quem pediu e de quem fez!

3ª situação: Não fazemos trabalhos para quem, definitivamente, NÃO QUER nossa ajuda! Essa situação é parecida com a anterior, mas é um pouco mais grave porque contrariaria, mais claramente, o livre-arbítrio de alguém.

É o caso, por exemplo, da pessoa hospitalizada, impossibilitada de se expressar, mas que, devido a convicções espirituais próprias, todos sabem que não admitiria, em hipótese nenhuma, que fosse feito qualquer trabalho para si. Sim! Por incrível que pareça, já vi gente dizer que prefere morrer no hospital a ser tratada espiritualmente por um terreiro. Portanto, em respeito às suas convicções, por mais que os parentes e amigos queiram que se faça algo, não podemos interferir sobre sua vontade, impondo-lhe o que NÓS achamos correto; assim como também, talvez não gostaríamos se estivéssemos internados nessa situação, com a guia do nosso Orixá na cabeceira da cama, e uma pessoa de outra religião fosse até lá e a retirasse por achar que a sua crença é a mais correta. Mais uma vez, é o tal do “não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem para si...”

4ª situação: Não fazemos trabalhos para quem não vê seriedade em nossa ajuda. Esse é o caso, por exemplo, da pessoa que, sabendo que um amigo vai ao terreiro, solicita-lhe que peça ao Guia para fazer algo por ele, mas não se dispõe nem a acompanhá-lo, e quer que seu problema seja resolvido à distância, sem o seu envolvimento, mesmo que não tenha nada a fazer naquele momento ou que impeça a sua visita. Pessoas assim, que querem o auxílio através de outros, ou o “peixe ao invés da vara”, não encaram o socorro espiritual com a seriedade e a responsabilidade que merece; não demonstram vontade nenhuma de se esforçar para receber auxílio e são, provavelmente, do tipo que gostariam de ser ajudadas, de preferência, sem fazer força. A pessoas assim, o que podemos fazer é aconselhar que, elas mesmas, procurem um terreiro para buscar auxílio; mesmo porquê, por razões vibratórias, é bem mais fácil para qualquer Guia poder ajudá-las se estiverem presentes e com a mente voltada ao trabalho que estiver sendo realizado.

Apesar dessas situações descritas anteriormente, nas quais não realizamos os chamados “trabalhinhos”, há outras que são até parecidas, mas que não nos impedem de realizá-los.

Exemplo: Faremos os trabalhos que forem precisos, ainda que a pessoa não compareça ao terreiro ou que não goste do nosso trabalho, ou que não tenha solicitado nossa ajuda, se esta pessoa for menor de 18 anos ou incapaz mentalmente, e o seu pai, mãe ou responsável legal tiver vindo à nossa casa pedir socorro. Entendemos que até essa idade ou com a limitação de raciocínio, os pais são responsáveis pelos filhos, e podem falar em seu nome e decidir o que pode e o que não pode ser feito por eles.

Também faremos o trabalho espiritual que for necessário, mesmo que a pessoa pertença a outro terreiro, se tivermos o aval do seu dirigente espiritual para isso (e sim, isso já aconteceu, até com o próprio dirigente nos procurando para pedir auxílio!).

Faremos também o que for preciso para o consulente que não está presente e solicitou nossa ajuda através de terceiros, mas que, realmente, está incapacitado de comparecer fisicamente, como por exemplo, se estiver internado, encarcerado, em outra cidade, etc.

Enfim, existem “situações” e “situações”... Muitos podem pensar que, se Umbanda é Caridade, então deve-se fazer qualquer coisa, por qualquer um e em qualquer situação. Bom, é quase isso! Mas temos que ter em mente que, às vezes, no afã de querermos ajudar, poderemos estar invadindo a privacidade de alguém ao fazer por essa pessoa algo que ela não queria; poderemos estar estimulando a irresponsabilidade e o descompromisso, se fizermos algo por alguém que não demonstra vontade de fazer o mínimo esforço nem para estar presente; poderemos não estar, DE FATO, ajudando, ao fazermos um trabalho para resolver uma situação que poderia ser resolvida com um pouco mais de inteligência, esforço, paciência ou determinação de alguém, sem a terceirização de responsabilidades.

Sendo assim, os limites entre o que é realmente AJUDA e o que NÃO É são muito tênues e, querendo ajudar, muitas vezes poderemos acabar prejudicando alguém energeticamente, moralmente ou consciencialmente, e é, por isso, que sempre recomendamos uma boa análise e, na dúvida, perguntamos aos nossos Guias. Afinal, não basta sermos umbandistas, sabermos qual trabalho poderia ser feito naquele caso, termos tempo disponível e querermos ajudar! Não basta, em suma, termos as mais puras intenções! Como disse, sem querer, poderíamos até estar atrapalhando e, como já dita a sabedoria popular, “de boas intenções o inferno está cheio!”.

Amplexos,

Tata Luis

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.
 

bottom of page