QUERO SAIR DO TERREIRO!
- TATA LUIS
- 23 de out. de 2017
- 10 min de leitura
Às vezes, basta apenas uma semana após entrar para o terreiro, e o médium já começa a pensar em sair. Em outros casos, esse pensamento acontece em momentos posteriores. Mas, seja em que momento for, se você já tem um certo tempinho “de casa” é possível que também já tenha tido essa ideia. Se não teve, ainda a terá! Isso é normal, e acontece com todos; porque nós, seres humanos, somos questionadores por essência (graças a Deus) e naturalmente insatisfeitos (graças a nós mesmos); e, cedo ou tarde, em um de nossos momentos mais azedos, quando estivermos com vontade de mudar tudo em nossa vida, não sabendo por onde começar e numa reação instintiva, tenderemos a abandonar as coisas mais fáceis de serem abandonadas, como se isso fosse resolver tudo o que sentimos ou mudar radicalmente nossa situação. A psicanálise explica esse tipo de comportamento como uma tentativa de fuga de nós mesmos; que, não sendo possível, é substituída – como uma fuga compensatória – pelo afastamento de alguma atividade, grupo social, trabalho ou o que for mais fácil. E, dentre essas coisas mais facilmente abandonáveis, muitas vezes encontra-se o trabalho mediúnico dentro do terreiro.

Se você, nesse momento, está atravessando essa fase de dúvidas – ou mesmo se ainda não está – preste atenção nas reflexões a seguir. Pode ser que auxiliem a definir seus rumos.
Quando você se decidiu entrar para o seu terreiro de Umbanda, você buscava uma atividade espiritual que lhe atendesse de três formas:
Que o ajudasse a manter-se saudável energética e espiritualmente,
Que lhe trouxesse satisfação e bem estar emocional e
Que lhe instruísse sobre como ser uma pessoa melhor.
Sendo assim, teoricamente, a única coisa que justificaria você querer se ausentar de sua casa seria justamente a impossibilidade de atingir algum desses três objetivos. Por isso, então, vamos começar falando do primeiro deles, que é o alcance do seu equilíbrio energético.
Para que você fique saudável energeticamente, sem qualquer tipo de problema espiritual, e para que se mantenha assim, algumas coisas são necessárias.
Em primeiro lugar, a casa onde você frequenta deve ter uma boa estrutura e suporte espiritual. E isso é fácil de observar pelo próprio ritmo de trabalho da casa e pelo grau de satisfação das pessoas que a procuram em busca de auxílio. Além disso, o seu dirigente espiritual deve saber lhe orientar em seus questionamentos e durante todo o seu desenvolvimento mediúnico, ensinando, estimulando, corrigindo e observando seu progresso. Sempre que necessário, deverá realizar os tratamentos espirituais específicos para o seu caso e acompanhar o avanço de sua situação energética. Deverá saber aconselhá-lo e lhe dar todos os subsídios para que você se mantenha, a partir daí, equilibrado e sem novos problemas espirituais.
Se sua casa e seu dirigente correspondem a tudo isso, ótimo! É possível, então, que a vontade de sair do terreiro não venha desse ponto. Mas se, mesmo tendo consciência da capacidade do seu dirigente e da sua casa de fazerem um bom trabalho, você ainda se sente carente de apoio espiritual, lembre-se de dois fatores importantes: o primeiro é que o seu pai ou mãe de terreiro também têm seus próprios afazeres, trabalho, família e compromissos e, por isso, nem sempre – por mais que queira - poderá estar à SUA disposição, no horário em que VOCÊ quiser; e o segundo é que talvez esteja faltando comunicação entre vocês dois. Lembre-se que seu dirigente não é adivinho (às vezes até é!) e, portanto, poderá não saber se algo está acontecendo com você sem que você o procure e exponha a sua situação para que ele possa investigar e resolver. Enfim, se for esse o problema, nada como um bom diálogo para que as coisas possam ser bem esclarecidas.
Mas, ainda em se tratando de alcançar o seu equilíbrio energético, a casa e o dirigente não são os únicos responsáveis. Por mais que ambos sejam competentes, você não conseguirá se equilibrar e manter-se assim se você utiliza substâncias nocivas ao seu corpo perispiritual (drogas, álcool); se você frequenta locais vibratoriamente pesados (botequins, locais de prostituição); se você, irresponsavelmente, faz qualquer trabalho espiritual recomendado por qualquer pessoa; se você não cumpre com suas obrigações mediúnicas (faltando facilmente às sessões e aos trabalhos espirituais); se você cultiva mau humor e pensamentos depreciativos e - além de outras coisas - se você não segue as orientações que o seu dirigente e a sua casa lhe passam. Aí, seu orientador poderia ser Jesus, Krishna, Maomé ou Buda e, ainda assim, seus problemas espirituais não seriam resolvidos.
Há também o caso dos médiuns que ESTÃO equilibrados e sem nenhum problema espiritual, mas que não acreditam nisso, e insistem em achar que “têm alguma coisa” pelo fato de não conseguirem resolver a sua vida financeira, mesmo sendo gastadores demais; ou por não conseguirem se manter em emprego nenhum, embora não se esforcem por cumprir horários, tenham dificuldades em receber ordens e não cumpram bem suas funções.
Enfim, antes de querer sair do seu terreiro por achar que não está conseguindo se equilibrar energeticamente, verifique se a situação de sua saúde espiritual está dependendo mais da sua casa e do seu dirigente ou de você e de suas atitudes. Se a casa e o seu dirigente estiverem cumprindo com seus deveres espirituais, então, provavelmente, é você quem deve rever sua postura. Se, ainda assim, você resolver sair da casa, saiba que, caso você não mude seus próprios padrões, provavelmente NUNCA encontrará um lugar ideal para você. Lamentavelmente! Pense nisso!
A segunda coisa que você buscava ao entrar para o terreiro era satisfação e bem-estar emocional. Esse é um ponto que é muito fácil de ser alcançado, por ser o terreiro de Umbanda um local naturalmente alegre e vibrante, propício ao seu encontro com seus Guias e Orixás, o que, por si só, já lhe garantiria o sonhado bem-estar. Se, portanto, o terreiro cumpre com seu papel, sem apresentar qualquer coisa contrária ao que você entende por moral e ética, e procura realizar seus trabalhos com lisura, honestidade e responsabilidade, de modo a favorecer o alto-astral e a captação de vibrações positivas, pode ser, então, que o problema não seja exatamente a casa, mas sim você, que pode estar dando atenção demais ao que os outros irmãos de corrente fazem, como se comportam e como trabalham ou ao que eles NÃO fazem, como NÃO se comportam e como NÃO trabalham! Se for esse o caso, isso significa que você esqueceu do seu propósito original de obter satisfação pela prática religiosa e pelo encontro com seus Guias e Orixás, e passou a desviar a sua atenção para outras coisas que, verdadeiramente – e cá entre nós -, não deveriam ter a mesma importância para você! Já vi gente sair de terreiros porque lá “tinha muita gente falsa”, ou porque “era cheio de puxa-sacos”, esquecendo que sua permanência ali deveria independer do comportamento dos outros, e depender integralmente de sua interação com seus Guias e Orixás.
O problema é que, quando o médium começa a dar mais valor ao que não é espiritual, e as coisas secundárias passam a ter maior importância que as coisas básicas, ele começa a se desestimular e a faltar às sessões e aos trabalhos. E, quanto mais faltar, mais se desestimulará, gerando um ciclo vicioso que dificilmente será interrompido, a não ser com a sua saída do terreiro. É importante, então, que o médium, nesse momento de insatisfação, bote os pés no chão e lembre que, seja em que lugar for (terreiros, igrejas, escolas, clubes), sempre terá que conviver com pessoas diferentes e falhas, e deverá saber desenvolver a arte da tolerância e da convivência pacífica. Deve também tentar manter viva na memória a lembrança do POR QUÊ está no terreiro, de qual era o seu foco original, esforçando-se para interromper o tal do ciclo vicioso antes que a situação fique insustentável. Deve ter em mente que o mais importante não são os outros e nem as menores coisas; mas sim o seu contato com seus Guias e a alegria de sentir a vibração do Orixá sobre si; caso contrário, não será aqui, nem ali e nem acolá que se sentirá bem; nunca se adequará a lugar nenhum, e sempre estará procurando por novos caminhos, pois divergências, diversidades e falhas humanas há em qualquer lugar. O mais importante é sempre manter o FOCO!
O terceiro ponto que você desejava ao entrar para o terreiro era encontrar um lugar que lhe instruísse sobre como ser melhor. O terreiro que você frequenta procura cumprir essas tarefas? Há, nele, oportunidades de esclarecimento sobre moral, comportamento e conduta sob a ótica espiritual? Sua casa lhe estimula a ser mais paciente, a abandonar os vícios e a aprender a perdoar? Ela lhe empurra para frente, oferecendo oportunidades de trabalho e de aprendizado? Se sim, então o seu terreiro cumpre com o que lhe cabe. Talvez, pelo contrário, você é que não se sinta bem sendo estimulado a sair da sua zona de conforto, a dispender parte do seu tempo em cursos e em trabalhos espirituais que a casa lhe oferece para o seu próprio engrandecimento... Se for isso, provavelmente, quando você começou na casa, você queria o progresso, mas não tinha ideia de que ele exigiria tanto de você.
Uma vez tendo refletido sobre os três pontos citados e, tendo chegado à conclusão da parcela de responsabilidade que cabe ao próprio médium, é possível que grande parte da vontade de sair do terreiro já comece a diminuir, sendo substituída pela razão, pela noção do peso de suas próprias ações e pela percepção de que, continuando assim, jamais haverá dirigente ou terreiro que corresponda ao que o médium quer. Mas, ainda assim, há um outro fator QUE É MUITO IMPORTANTE, que pesa bastante sobre a decisão de sair da casa e que quase nunca é lembrado: falo do assédio espiritual!
O terreiro é um hospital espiritual e tem como uma de suas funções básicas tratar espiritualmente de seus médiuns, da mesma forma que o hospital físico cuida de seus doentes. Contudo, assim como com as doenças materiais, as doenças espirituais nem sempre são curadas da noite para o dia. Muitas vezes requerem um tratamento mais demorado, um acompanhamento específico, a mudança de atitudes por parte do doente e, dependendo do caso, a vigilância por toda a vida. E é lamentável quando, dentro do terreiro, vemos uma pessoa iniciar o seu tratamento, conseguir começar a melhorar e, por assédio de perturbadores espirituais acabar se afastando. É terrível quando isso acontece; não para o terreiro, obviamente, mas para a própria pessoa!

Para entender melhor, imagine que você fosse um obsessor e quisesse o mal de alguém; imagine também que essa pessoa procurasse um terreiro para tentar resolver a sua situação espiritual. Se você – obsessor – percebesse que aquela casa não possui um bom suporte espiritual e nem capacidade suficiente para afastá-lo de seu obsidiado, você se incomodaria que ele continuasse a frequentá-la? É claro que não! E ainda, talvez, o estimulasse; para vê-lo perdendo tempo, se enganando, sendo enganado e se desiludindo no final. Mas, ao contrário, se você – obsessor – sentisse que suas ligações com seu obsidiado sempre enfraquecem por conta da frequência dele ao terreiro, e que o término de seu assédio é só uma questão de tempo, o que você faria? Ficaria tranquilo ou tentaria, enquanto fosse possível, afastá-lo dali? É óbvio que tentaria afastá-lo! E sabe como você faria isso? Preste atenção e tentemos ler bem devagar para você refletir bem: Você tentaria afastá-lo do terreiro tocando no seu ponto fraco, estimulando o desânimo, o descrédito, a revolta, o achar que “nada disso vai dar certo mesmo”; tentaria fazer com que ele se irritasse facilmente com os deslizes dos outros; despertaria dúvidas sobre a capacidade do dirigente; geraria desconfianças sobre o seu próprio trabalho mediúnico; tentaria fazê-lo acreditar que o pai ou mãe de terreiro não lhe dá a atenção merecida ou que protege outras pessoas; tentaria aumentar as dificuldades profissionais ou provocar prejuízo financeiro ou alguma doença inesperada para que ele desacreditasse da ajuda espiritual e, quem sabe, até colocaria em seu caminho um novo amigo ou amiga para o aconselhar e o convencer a ir para outro terreiro ou para outra religião... Enfim, como um bom obsessor, sabendo que seu obsidiado iria achar que todas essas conclusões teriam se originado dele mesmo e conhecendo a fundo o seu modo de pensar, você saberia exatamente os pensamentos que deveria inspirar, aqueles capazes de minar-lhe as forças e a fé, culminando com o seu afastamento do terreiro atual, para que você – obsessor – pudesse proclamar a sua vitória final! E quanto mais próximo de solucionar o problema do médium, mais desesperada seria sua investida.
É por isso que digo que é lamentável quando isso acontece; porque, muitas das vezes, o médium ainda está sob tratamento, ainda não está completamente liberto de suas companhias espirituais negativas; as quais, justamente por estarem sendo VENCIDAS, se revoltam e, como cartada final, como última tentativa, investem pesado sobre o médium; e ele, sem refletir sobre a sua situação, sem querer ver que está no meio de um campo de batalha espiritual e sem fazer um pouco mais de esforço, se entrega facilmente ao mal-humor, ao disse-me-disse, ao desânimo, à preguiça, ao “não sei o que estou fazendo aqui”, ao “não suporto olhar para fulano”, ao “esse terreiro é fraco” e a tantos outros pensamentos semelhantes; não percebendo que está decretando – para si próprio – o retorno ao ponto de partida, jogando fora tudo o que já fora feito; quando, às vezes, faltava tão pouco; ocasionando o retrocesso de todo o trabalho espiritual que tinha sido iniciado e que, sabem os Guias o que tiveram que fazer na espiritualidade para chegar aquele ponto tão incômodo aos obsessores; mesmo que, ante à visão material, o progresso ainda não aparentasse ser tão grande assim...
Enfim, realmente há motivos que podem justificar coerentemente a saída de um médium de um terreiro. E eles devem ser observados e respeitados, pois não adianta ao médium permanecer em uma casa que não lhe atenda, e ainda sendo cuidado por um pai ou mãe de terreiro não consciente de suas responsabilidades. Mas é bom, também, que o médium, antes de sair, reflita sobre as reais causas e os reais causadores de sua insatisfação. E, decidindo-se por sair, que o faça com o mesmo respeito de quando entrou. Se não for possível agradecer pelo que recebera ali, que pelo menos não fale mal! Afinal de contas, embora não queira continuar, aquela foi a casa aonde seus Orixás lhe conduziram para que pudesse ser cuidado durante aquele período e, de certa forma, ela foi necessária e útil para seu crescimento e aprendizado. E, como dizia minha avó: “não se cospe no prato em que comeu!”. E eu completo: ainda mais se o prato era um alguidar e quem comeu foi o seu Exu.
Amplexos,
Tata!